Mito de Er
Este é um texto sobre o Mito de Er, da República de Platão. É um livro que li sem possuir, naquele momento, os fundamentos necessários para compreendê-lo plenamente. Ainda assim, sua leitura se fez necessária para a fase da vida pela qual eu estava passando. Antes de lê-lo, pesquisei sobre a obra, já conhecia a biografia de Platão e havia despertado meu interesse pela filosofia.
O que é a República ? É uma das obras mais importantes e conhecidas de Platão, escrita provavelmente no século IV a.C., por volta de 375 a.C. A obra é construída principalmente na forma de diálogos, tendo Sócrates como personagem central.
Um dos grandes problemas que orientam a discussão é uma pergunta aparentemente simples, mas bastante incômoda: vale a pena ser justo ? O que é a justiça ? É melhor ser justo por si mesma ou apenas pelas vantagens e recompensas que ela pode trazer ? Em outras palavras: vale a pena agir corretamente quando a injustiça poderia trazer mais benefícios ?
A partir dessas questões, Platão desenvolve uma longa investigação sobre a justiça, a educação, a organização da cidade, a natureza da alma e o modo como devemos viver.
É nesse contexto que aparece o Mito de Er, encerrando a obra. O mito narra a experiência de Er, um homem que teria morrido em batalha e retornado à vida para contar o que viu após a morte. Seu relato aborda o destino das almas, as consequências de suas escolhas e a possibilidade de escolher uma nova vida.
Por estar no final da República, o Mito de Er funciona como uma conclusão simbólica da obra e retoma uma de suas questões fundamentais: quais são as consequências de nossas escolhas e que tipo de vida devemos escolher ? Ele não deve ser entendido simplesmente como “a resposta final” de Platão, mas como uma narrativa que encerra e amplia a investigação filosófica desenvolvida ao longo do diálogo.
Quem conta a história ? Sócrates, que foi o professor de Platão e é o personagem principal de quase todos os seus livros. É pela boca dele que o mito é narrado.
O cenário #
Er é um guerreiro que morre em batalha. O corpo dele fica dias no campo sem apodrecer e, na hora de ser cremado, ele acorda e conta tudo o que viu do outro lado.
Basicamente: o primeiro relato de experiência de quase-morte da história da filosofia.
O que Er descreve é o processo pelo qual as almas retornam ao mundo sensível. Traduzindo o termo técnico: “mundo sensível” é simplesmente o mundo que a gente enxerga, toca, cheira, o mundo material, O DAQUI. Platão acreditava que a alma existe antes e depois do corpo, e que ela vai e volta. O que Er viu foi justamente o balcão de embarque dessa volta. E lá tem gente trabalhando. As Moiras, três figuras da mitologia grega que controlam o destino de cada pessoa, representadas como fiandeiras (mulheres que fiam, ou seja, produzem linha). A ideia é que a sua vida é um fio, e elas cuidam desse fio:
- Cloto: a que fia, ou seja, produz o fio da sua vida.
- Láquesis: a que mede e distribui, sorteia e organiza os destinos.
- Átropos: a que corta o fio. Ela é a morte. O nome dela significa literalmente “a inflexível”, a que não volta atrás.
Guarde esse detalhe, porque ele importa: as Moiras estão lá, o destino existe na história. Platão não está negando o destino. Ele vai fazer algo mais esperto do que isso.
As regras do jogo #
Agora vem a parte boa. O renascimento das almas segue regras bem específicas.. e cada uma delas carrega um recado.
1. Rola um sorteio (diferente) #
Quando as almas estão prontas pra renascer, elas participam de um sorteio. Só que o sorteio não define a vida que você vai ter. Ele define apenas a ordem em que cada alma vai escolher. É senha de fila, não prêmio. Você não sorteia o que vai levar; você sorteia quando vai poder pegar.
2. Sobra vida pra todo mundo #
E aqui está o ponto central do mito: há mais opções de vida do que almas. O acaso participa do processo. O sorteio existe e determina a ordem em que cada alma escolherá, mas a escolha da vida que cada uma levará é, em última instância, sua. E, junto com a escolha, vem também a responsabilidade por ela. Essa ideia me atingiu de uma forma inesperada. Foi o tipo de passagem que me fez parar a leitura e ficar olhando para o teto por um bom tempo.
3. Os deuses não têm culpa #
Platão bate nessa tecla com força total. A frase que aparece no mito é praticamente uma sentença: a culpa é de quem escolhe, e a divindade não tem culpa nenhuma. Ninguém empurrou nada goela abaixo de ninguém. Cada alma escolhe seu caminho conforme a sabedoria que tem ou conforme a falta dela. Isso, no contexto grego, era uma provocação e tanto. A cultura da época estava cheia de histórias em que os deuses arruinavam a vida das pessoas por capricho, ciúme ou vingança. Platão está cortando essa desculpa pela raiz.
O cardápio de vidas #
E o que estava disponível pra escolher ? De tudo. Vidas ricas, vidas pobres, vidas de tirano, vidas de gente famosa, vidas de anônimo, vidas simples, vidas de bicho até. Um bufê completo de existências possíveis. Só que é aí que a coisa complica de verdade. Porque a vida que parece boa nem sempre é boa. A vida de tirano brilha de longe: poder, dinheiro, todo mundo te obedecendo. De perto, é uma máquina de produzir injustiça e, segundo Platão, quem produz injustiça acaba destruindo a si mesmo por dentro. No mito, tem uma cena ótima: uma alma se atira em cima da vida de tirano, agarra ela com tudo, e só depois percebe o que veio junto no pacote. Aí sai se lamentando e culpando os deuses. Mas ela mesma escolheu. Ela só não olhou direito. Então o desafio real nunca foi escolher a vida mais chamativa. O desafio era ter autoconhecimento suficiente pra escolher uma vida que levasse à virtude e não à injustiça.
Rapidinho sobre esses dois termos, porque eles são o coração do texto:
- Virtude, pra Platão, não é ser “bonzinho” nem seguir regras de etiqueta moral. É a alma funcionar bem, em ordem, com a razão no comando, como um instrumento afinado.
- Injustiça é o contrário: a alma bagunçada, desgovernada, com os impulsos mandando. Pra Platão, isso é uma espécie de doença da alma. E é por isso que ser injusto é ruim pra você, mesmo que ninguém descubra e mesmo que você lucre com isso.
E tem um detalhe cruel: o caráter #
O caráter o jeito de ser, a estrutura moral da pessoa é muito difícil de mudar depois que a escolha é feita. Ou seja: você não escolhe só as circunstâncias da sua vida. Você escolhe também, junto e embutido, o tipo de pessoa que vai ser dentro dela. Vem tudo no mesmo pacote. Por isso o mito insiste tanto que a habilidade mais importante do mundo é conseguir prever o bem e o mal que uma vida pode trazer. Saber olhar pra uma opção e enxergar não o brilho da superfície, mas o que ela vai fazer com você por dentro, a longo prazo. Sem isso, você está apostando no escuro com o próprio destino.
E por que a gente não lembra de nada disso? #
Boa pergunta, o mito responde. Antes de reencarnar, as almas atravessam uma planície árida e bebem a água do Rio do Esquecimento (em grego, Lete, palavra que significa literalmente “esquecimento”). Um gole e pronto: apagou tudo. Por isso ninguém chega aqui lembrando da própria escolha. A gente nasce sem o manual, sem o recibo, sem a memória de ter assinado embaixo. O que é meio sacana, admito. Mas também é exatamente o que torna a vida uma vida de verdade, e não a execução de um roteiro que você já leu antes.
O que Platão realmente quis dizer com tudo isso #
aqui o bicho pega..
1. É um ataque frontal ao fatalismo #
Fatalismo é a crença de que está tudo escrito e não adianta nada fazer nada, “se tem que ser, vai ser”. O primo dele, o determinismo, é a ideia de que tudo o que você faz já foi causado por coisas fora do seu controle: genética, criação, sociedade, acaso. Repare no que Platão faz: ele não nega que exista destino. As Moiras estão lá, tecendo. O sorteio existe. O acaso existe e interfere de verdade. Ele poderia simplesmente ter dito “destino não existe”, mas não disse. O que ele faz é mais sofisticado: ele mostra que, mesmo dentro do destino, sobra liberdade. Você não escolhe a posição na fila. Você escolhe o que faz com ela. E como sempre sobra opção boa na mesa, a desculpa “eu não tinha alternativa” simplesmente não cola.
Essa é a tese central: o ser humano é livre e, por ser livre, é responsável pelo caminho que trilha.
2. É um recado sobre de quem é a culpa #
Toda a estrutura do mito serve pra fechar as saídas de emergência que a gente usa pra fugir da responsabilidade.
Culpar os deuses ?? Bloqueado.. a divindade é inocente. Culpar o sorteio ?? Bloqueado.. sobrava vida boa. Culpar a falta de opção ?? Bloqueado.. o cardápio era enorme. Culpar quem escolheu antes de você ?? Bloqueado.. pergunte ao Ulisses hehe.
Sobra o quê ?? Sobra você =)))))
3. A “escolha” não aconteceu num além-vida, ela está acontecendo agora #
Esse é o ponto mais importante, e é onde o mito deixa de ser uma história sobre reencarnação e vira uma história sobre hoje. Lembra que o caráter vem embutido na escolha e é quase impossível de mudar depois ? Lembra que a alma que agarrou a vida de tirano fez isso por impulso, sem examinar ? Então: essa é uma imagem do que a gente faz o tempo todo.
A cada decisão, o que estudar, com quem andar, o que aceitar, o que deixar passar, que tipo de pessoa se permitir ser numa discussão, você está de novo naquele campo, escolhendo um pacote de vida sem enxergar direito o que vem dentro. E, assim como no mito, depois de um tempo fica muito difícil desfazer. O Rio do Esquecimento é a imagem perfeita disso: a gente esquece que está escolhendo. Age no automático, culpa as circunstâncias, e só percebe o pacote quando já é tarde.
4. Por isso a filosofia importa.. e essa é a real conclusão do livro #
Aqui tudo se encaixa. Se a única coisa que separa uma escolha boa de uma escolha desastrosa é a capacidade de examinar as opções antes de agarrar a primeira que brilha, então a habilidade mais valiosa que existe é aprender a examinar. É isso que Platão chama de filosofia. Não decoreba de nomes gregos: é o treino de olhar pras coisas com calma e enxergar o que elas realmente são, e não o que aparentam ser. É exatamente o que Ulisses fez enquanto todo mundo se atropelava.
E aí a República fecha o círculo. A pergunta inicial era “vale a pena ser justo ?”. A resposta do mito é: vale, porque a justiça não é uma regra imposta de fora que te atrapalha, é o que mantém sua alma em ordem, e uma alma em ordem é a única coisa que consegue escolher bem. Ser injusto não te dá vantagem; te deixa cego na hora que mais importa enxergar.
“Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida.” — Provérbios 4:23