Diálogo sobre o Mestre e a Prática
Cenário: Sócrates caminha próximo à palestra quando Mênon sai dela às pressas, ainda com poeira nos ombros e visivelmente contrariado.
SÓCRATES: Mênon, sais da palestra como quem foge de um incêndio. Que aconteceu ?
MÊNON: Uma discussão, Sócrates. Os jovens zombaram do velho Íkos, que ali ensina os lutadores. Diziam: “como pode ensinar a vencer quem nunca venceu em Olímpia ?”. E confesso que ri com eles, mas agora algo me incomoda.
SÓCRATES: O que te incomoda ?
MÊNON: Íkos treinou três campeões. Nenhum de seus discípulos jamais perguntou por suas coroas, e todos saíram coroados. Como pode isso ?
SÓCRATES: Diz-me: o auriga que vence a corrida, vence pelos seus olhos ou pelos olhos do cavalo ?
MÊNON: Pelos seus, suponho.
SÓCRATES: E aquele que, da arquibancada, percebe que o auriga aperta a curva cedo demais e perde meio corpo de vantagem, precisa ele próprio saber conduzir o carro ?
MÊNON: Talvez não. Ver o erro e cometer o acerto parecem coisas distintas.
SÓCRATES: Então já encontraste duas artes onde julgavas haver uma. Há a arte de fazer, que mora nas mãos e nas pernas, e há a arte de ver e explicar, que mora nos olhos e na palavra. O corredor mais veloz de Atenas saberia dizer-te por que é veloz ?
MÊNON: Duvido. Perguntei certa vez a um deles e respondeu apenas: “corro desde menino”.
SÓCRATES: Eis um homem que sabe e não sabe que sabe. Se o puseres a ensinar, dirá aos alunos “correi desde meninos”, e nada terá ensinado. E Íkos, que talvez jamais tenha derrubado um adversário, viu cair dez mil homens e sabe dizer de cada queda a causa. Qual dos dois formará o campeão ?
MÊNON: Íkos, ao que parece. Então está resolvido: quem ensina não precisa ser exímio no que ensina.
SÓCRATES: Não corras tão depressa, Mênon, ou tropeçarás como o auriga da curva. Responde-me: aceitarias aprender a nadar com um homem que nunca entrou na água ?
MÊNON: De modo algum!
SÓCRATES: E por quê, se há pouco concordamos que ensinar e fazer são artes distintas ?
MÊNON: Porque… esse homem não conheceria a água. Falaria do mar como quem fala de um país que nunca visitou.
SÓCRATES: Muito bem. Então distingue comigo: uma coisa é exigir do mestre que seja o melhor dos praticantes; outra é exigir que conheça de dentro aquilo que ensina. Íkos lutou, caiu, sentiu a areia na boca. Não colheu coroas, mas colheu o conhecimento da luta. O que ele não tem é a glória; o que ele tem é a ciência.
MÊNON: Mas então por que exigimos as coroas, Sócrates ? Por que a primeira pergunta que fazemos ao mestre é “o que venceste ?”, e não “o que compreendes ?”.
SÓCRATES: Porque as coroas se contam com os dedos, e a compreensão não se conta. O homem apressado prefere a prova que os olhos verificam num instante à prova que exige convivência e tempo. A coroa é um rótulo pendurado no peito, e já conversamos, noutra ocasião, sobre o quanto os rótulos poupam o trabalho de pensar.
MÊNON: Então erramos ao cobrar reputação prática de quem ensina ?
SÓCRATES: Erramos e acertamos, Mênon, e é isso que te peço para não simplificar. Acertamos, porque a reputação prática é um indício: quem fez, provavelmente conhece. Erramos, porque tomamos o indício por prova: quem fez pode não saber explicar, e quem explica pode ter conhecido a coisa sem jamais brilhar nela. A coroa prova que o homem venceu; não prova que ele sabe por que venceu, e menos ainda que saiba fazer outro vencer.
MÊNON: E o contrário também vale ? A ausência de coroa não prova ignorância ?
SÓCRATES: Assim como a ausência de riqueza não prova preguiça, nem a ausência de barba prova juventude. Mas nota: também não prova sabedoria. Há mestres sem coroa que são como Íkos, e há mestres sem coroa que são como o homem seco que ensina a nadar. A ausência do rótulo apenas te devolve o trabalho que o rótulo prometia poupar: o de examinar.
MÊNON: E como examino, Sócrates ? Se não pelas vitórias do mestre, pelo quê ?
SÓCRATES: Pelos frutos que são propriamente seus. Os frutos do lutador são as quedas que provoca; os frutos do mestre são os lutadores que forma. Pergunta ao mestre não “o que venceste ?”, mas “quem aprendeu contigo, e o que se tornou ?”. E pergunta a ti mesmo, ao ouvi-lo: “compreendo mais agora do que antes ?”. Se a resposta for sim, tens diante de ti um mestre, tenha ele cem coroas ou nenhuma.
MÊNON: Ainda assim, algo em mim resiste. Quando o mestre também executa com excelência, não é ele melhor ?
SÓCRATES: Talvez seja mais raro, Mênon, como é raro o cavalo que é belo e veloz ao mesmo tempo. Quando encontrares um homem que faz com excelência e explica com clareza, honra-o, pois a natureza foi generosa duas vezes. Mas não faças da generosidade dupla a medida de todos: exigirias de cada cavalo que fosse o mais belo e o mais veloz, e ficarias a pé.
MÊNON: Então, afinal, é certo ou errado cobrar de quem ensina a reputação de quem executa ?
SÓCRATES: Essa balança, Mênon, não a carrego eu; carrega-a cada um que escolhe a quem confiar seu aprendizado. Eu apenas te mostro os pesos: de um lado, o indício honesto que a prática dá; do outro, a injustiça de medir uma arte com a régua de outra. Pesa-os tu mesmo, a cada mestre que encontrares, e desconfia de quem te vender a resposta pronta, inclusive de mim, que nunca venci luta alguma e passo os dias ensinando na praça.
..então Mênon ficou em silêncio, Sócrates sorriu do próprio exemplo, e ambos voltaram à palestra, mas só para buscar o velho Íkos e levá-lo para tomar uma cerveja.
Glossário #
- palestra: escola de luta e exercícios físicos na Grécia antiga
- auriga: condutor de carros de corrida puxados por cavalos
- Olímpia: santuário onde se realizavam os Jogos Olímpicos da antiguidade
- Íkos: inspirado em Íkos de Tarento, atleta e depois célebre treinador grego
Nota #
Quem ensina precisa dominar, de maneira prática, aquilo que ensina? A resposta parece óbvia, mas talvez não seja. Costumamos exigir de quem ensina o currículo de quem executa, como se a capacidade de explicar fosse consequência inevitável da experiência. No entanto, há quem nunca tenha alcançado os maiores feitos e ainda assim ensine com clareza e profundidade. Da mesma forma, há praticantes extraordinários incapazes de transmitir o que fazem.
Talvez a experiência prática seja um forte indício de competência, mas não uma prova definitiva da capacidade de ensinar. E a ausência dessa experiência também não basta, por si só, para invalidar um bom mestre. Entre a prática e a didática existe uma relação, mas não uma identidade. A questão permanece aberta: o que, afinal, qualifica alguém para ensinar? Talvez a única certeza seja a lição socrática de que indícios não bastam e de que examinar cada caso continua sendo um trabalho sem atalhos.