O Mergulho

O homem está mal consigo mesmo. Incapaz de suportar o vazio que carrega, busca a embriaguez e torna-se escravo dos próprios vícios. No fundo, ele sabe. Conhece seus defeitos, seus medos e suas fraquezas. Também sabe que a culpa por sua condição não é exclusivamente sua. Falta-lhe amparo. A justiça parece injusta. O mundo é grande demais, indiferente demais, e a desigualdade o cerca por todos os lados.

Aos poucos, transforma-se em massa de manobra. Sente que algo está errado, mas não consegue dizer exatamente o quê. E, quando finalmente começa a refletir sobre isso, o despertador toca. São sete horas da manhã. É hora de trabalhar.

Afinal, sem dinheiro, o que ele representa para a sociedade?

Ele precisa pagar as contas. Precisa pagar pela água abundante do planeta que chega encanada à sua casa. Precisa pagar pela energia elétrica, essa maravilha que tanto facilita sua vida. Depois precisa comprar roupas, de preferência aquelas que carregam símbolos admirados pelos outros.

Mas continua mal consigo mesmo.

Então, mais uma vez, alguém precisa pagar por essa dor: seu próprio corpo. Os prazeres imediatos tornam-se necessários. Afinal, a vida é injusta, e ele acredita que nada pode fazer para mudá-la.

Até que, um dia, sem perceber, a própria vida o obriga a permanecer consigo mesmo.

Por algum tempo, ele deixa de se preocupar com boletos, trabalho e aparências. Faz um mergulho tão profundo dentro de si que até mesmo os rostos das pessoas que mais ama desaparecem de seus pensamentos. É ali que ele se aproxima de algo que nunca havia encontrado.

Da verdade.

Ou, pelo menos, de uma parte dela.

Ele não consegue explicá-la, mas consegue senti-la.

Sentir, porém, é algo difícil. Durante toda a vida aprendeu a confiar apenas naquilo que seus sentidos conseguem provar. Como pode agora acreditar em algo que simplesmente sente? Para continuar essa jornada, percebe que precisa silenciar a audição, o olfato, a visão e até o paladar. Nesse lugar, nenhum deles basta.

Ali, resta apenas o coração.

Muitos dirão que isso é conversa para boi dormir. Defenderão que apenas a lógica e o raciocínio importam. Dirão que só devemos agir quando tudo faz sentido.

Mas fazer sentido e sentir não são a mesma coisa.

E é justamente por ter chegado tão perto do próprio íntimo que ele decide mudar. Começa pelo corpo. Decide não agredi-lo mais. Em vez de usá-lo como depósito de seus excessos, passa a compreendê-lo. Pergunta-se do que ele realmente precisa para estar saudável.

Pela primeira vez, considera a possibilidade de que parte da responsabilidade por sua vida também lhe pertença.

Ao cuidar do corpo, percebe que precisa cuidar do ambiente em que vive. E, ao transformar o ambiente, algo curioso acontece: seus pensamentos mudam.

Agora ele enxerga o trabalho de outra forma. Aquilo que antes parecia apenas um fardo revela-se também uma oportunidade para exercer suas capacidades. O trabalho continua sendo o mesmo, mas quem o realiza já não é mais a mesma pessoa.

Ele faz com maestria o que antes apenas suportava.

Seu corpo está saudável. Sua casa transmite paz. Seu trabalho tornou-se mais leve.

Então sua mente começa a produzir pensamentos que jamais haviam passado por ela.

Perguntas surgem naturalmente.

Como posso ajudar outras pessoas?

Por que o mundo é como é?

O que realmente importa?

Como posso deixá-lo um pouco melhor do que encontrei?

E o mais curioso é que ele não precisa se esforçar para pensar nisso. Esses pensamentos simplesmente brotam.

Com essa nova leveza, começa também a agir de maneira diferente. Muitas vezes deixa de seguir apenas a lógica racional e passa a fazer certas coisas porque sente que deve fazê-las.

As pessoas ao redor não entendem.

Chamam-no de ingênuo, de tolo, de sonhador. Criticam suas atitudes e desaprovam suas escolhas.

Ainda assim, ele continua.

Percebe que ninguém ao seu redor possui as respostas que procura. Então decide consultar os mortos. Não os mortos em si, mas aqueles que viveram antes dele, atravessaram dilemas semelhantes e deixaram suas experiências registradas em livros, cartas, poemas e filosofias.

É nesse momento que descobre algo extraordinário.

Nada disso é novo.

Homens e mulheres, separados por séculos e continentes, percorreram caminhos parecidos. Cada um interpretou essa experiência de maneira diferente, utilizando palavras diferentes, símbolos diferentes e crenças diferentes.

Mas havia algo que os unia.

Algo impossível de definir completamente.

Agora esse homem vive bem. É leve. As pessoas percebem essa mudança. Mesmo discordando de muitas de suas ideias, admiram sua serenidade. Elogiam-no. Respeitam-no.

Ele também percebe isso.

E, por um instante, sente prazer nessa admiração.

Mas logo compreende que a vaidade aponta para o mesmo abismo do qual acreditava ter escapado. Apenas mudou de roupa. O destino continua tentando conduzi-lo ao mesmo lugar, apenas por outro caminho.

Então ele se vê novamente confuso.

Quase tudo parece dar certo. Ele se sente melhor do que nunca. Ainda assim, percebe que voltou a se afastar daquilo que considera verdadeiro.

É preciso parar.

Mas parar, na sociedade em que vive, parece sinônimo de morrer. O mundo exige movimento constante, produtividade constante, respostas constantes.

Mesmo assim, ele entende que precisa interromper a marcha.

Precisa desaparecer por um tempo.

Precisa ressignificar quem se tornou.

É hora de mergulhar outra vez no próprio interior.

Porque, no fim, é apenas lá que as respostas continuam esperando.

"only knowledge frees man" — E.C.