sollicitudo
Entre a profundidade legítima e o mero pedantismo, muitas obras se apoiam em jargões filosóficos, intelectualizações excessivas e, por vezes, em certo obscurantismo que pode ser tanto consequência natural da complexidade de seus autores quanto simples ornamento de vaidade intelectual. Para leitores como eu, que chegaram mais tarde à vida do saber, o acesso ao sentido da obra acaba se tornando difícil, não por falta de interesse ou disposição, mas porque a densidade da linguagem frequentemente se interpõe entre aquilo que está sendo pensado e a possibilidade de compreendê-lo plenamente.
O ponto é que já tenho trinta e um anos e, supondo que Deus me permita viver até os noventa, mais de um terço da minha vida já ficou para trás. Comecei tarde, e essa constatação frequentemente se transforma em ansiedade. Escutar o que pessoas em quem confio dizem sobre as grandes obras parece insuficiente; por mais valiosos que sejam seus relatos, eles não substituem o encontro direto com os textos. Algumas dessas obras consegui ler por conta própria. Outras, felizmente, tive a humildade de reconhecer que ainda exigiam de mim uma preparação que eu não possuía.
Talvez seja por isso que sinto a necessidade de ser cada vez mais criterioso com aquilo a que dedico meu tempo. Há em mim a impressão de que estou me preparando para algo que ainda não consigo nomear completamente. Preciso errar menos do que errei até aqui, avançar com mais disciplina naquilo que faço e descobrir, antes que o tempo me escape, qual é o propósito que deve orientar meus esforços.
Estamos vivendo a era das LLMs. De muitas formas, elas aceleram tudo o que faço: a maneira como estudo, pesquiso e organizo o aprendizado. No entanto, assim como os relatos de terceiros sobre as grandes obras, elas também não me satisfazem completamente. Por mais úteis que sejam, continuam sendo uma mediação. Seguem minhas instruções, sintetizam conteúdos e encurtam caminhos, mas não podem substituir o contato direto com as fontes, com os textos e com os fundamentos.
A tecnologia e as novas técnicas oferecem velocidade, mas velocidade por si só não resolve o problema. Cada vez mais percebo que me falta fundamento. Preciso voltar atrás para avançar melhor; preciso dedicar tempo às bases que, por ansiedade ou impaciência, muitas vezes tentei contornar. Há algo de paradoxal nisso: caminhar mais devagar para chegar mais longe. Ainda que a ansiedade esteja voltada para o destino final, compreendo que não há atalho capaz de substituir a preparação necessária. Se realmente desejo alcançar aquilo que procuro, preciso primeiro me tornar alguém capaz de sustentá-lo quando chegar.
Também tenho me envolvido em diferentes iniciativas, ao lado de pessoas de origens, experiências e perspectivas muito distintas. Em todas elas existe um esforço mútuo de ajuda e aprendizado. Reconheço, porém, algo que às vezes me soa desconfortável admitir: preciso do tempo e da capacidade de outras pessoas para realizar parte do que pretendo construir. Algumas contribuem voluntariamente; outras, por meio de relações profissionais remuneradas. De uma forma ou de outra, dependo delas tanto quanto espero ser útil a elas.
Talvez por isso minha relação com o dinheiro tenha mudado. Tenho atribuído cada vez menos valor a ele como um fim em si mesmo, embora continue reconhecendo sua importância prática e os benefícios concretos que pode proporcionar. E é justamente aí que surge uma das questões mais difíceis com as quais me deparo.
Eu creio em Jesus Cristo e em Deus. Ao mesmo tempo, quando minha filha Luna precisou de uma cirurgia, tive condições de buscar tratamento em um hospital de excelência, com médicos altamente qualificados. Não consigo deixar de perceber a tensão entre essas duas realidades. O que teria acontecido se eu não dispusesse dos recursos necessários? Minha filha teria sido salva da mesma forma? Os meios que encontrei para ajudá-la foram apenas fruto das circunstâncias humanas ou também parte da providência divina?
Não tenho respostas definitivas para essas perguntas. Na verdade, talvez elas pertençam àquelas questões que acompanham uma pessoa durante toda a vida sem jamais se deixarem encerrar por completo. Ainda assim, não sinto necessidade de esconder minhas dúvidas. Meu Pai conhece meus pensamentos antes mesmo que eu os formule, e não vejo vergonha em apresentar a Ele minhas inquietações, minhas limitações e minhas incertezas. A fé, para mim, não consiste em fingir que não existem perguntas difíceis, mas em continuar caminhando mesmo quando elas permanecem sem resposta.
Vou encerrando por aqui. Ravi está em Aracaju, e sinto sua falta. Luna, por sua vez, está próxima de mim, dormindo em casa. Há algo de profundamente simbólico nisso. Depois de quase sete meses de hospitalização, poder vê-la descansar no próprio lar é uma daquelas graças silenciosas que transformam o significado das coisas mais simples. A distância de um filho e a presença da outra me lembram, cada uma à sua maneira, o quanto a vida pode ser ao mesmo tempo generosa e exigente.
Sigo rezando para não retornar simplesmente à rotina. Não porque a rotina seja necessariamente ruim, mas porque temo voltar a viver no piloto automático, anestesiado pelas urgências do cotidiano e distante das perguntas que hoje considero essenciais. Quero continuar essa busca pela verdade, por mais imperfeita e incompleta que ela seja.
Também quero preservar algo que venho aprendendo, ainda que com dificuldade: agir mais a partir do coração do que apenas da razão. Sei que essa escolha pode parecer ingênua para algumas pessoas. Muitas vezes sinto que aqueles ao meu redor tentam me reconduzir ao pensamento óbvio, ao caminho esperado, à interpretação mais convencional das coisas. Não os condeno por isso. Na verdade, eu os compreendo. Cada um enxerga o mundo a partir das experiências que viveu e das certezas que conseguiu construir.
Talvez eu esteja errado em muitas das minhas conclusões. Talvez mude de ideia sobre várias delas nos próximos anos. Mas, neste momento da minha vida, sinto que seria um erro maior abandonar as perguntas apenas porque elas são difíceis ou porque nem todos entendem a direção que estou tentando seguir. Por enquanto, basta continuar caminhando, estudando, rezando e tentando me aproximar um pouco mais da verdade, onde quer que ela esteja. =)