Roadmap para aprender inglês
Quase todo brasileiro já começou a aprender inglês pelo menos três vezes. Começa com o verbo to be, larga, volta no ano seguinte, começa de novo pelo verbo to be. Não é falta de inteligência nem de “dom para línguas”. Na maioria das vezes, é falta de um mapa: a pessoa não sabe o que existe para aprender, em que ordem, como saber se está progredindo, e gasta energia com técnicas que dão sensação de estudo sem dar resultado.
Este texto é esse mapa. Ele tem três partes: primeiro, os conceitos (o que é fluência, o que é proficiência, como se mede nível); depois, tudo o que existe para aprender, com exemplos em inglês e tradução; por fim, as técnicas que a pesquisa em aquisição de segunda língua mostra que funcionam, e um roteiro por fases. Os exemplos aparecem sempre assim: a frase em inglês em itálico (e a tradução entre parênteses).
Fluência não é proficiência
As duas palavras são usadas como sinônimos no dia a dia (“ele é fluente em inglês”), mas na pesquisa elas significam coisas diferentes, e confundir as duas leva a estudar errado.
Proficiência: o quanto você sabe e consegue fazer
Proficiência é a sua capacidade geral na língua: quanto vocabulário você domina, quanta gramática, se entende textos e falas de vários tipos, se consegue se comunicar em situações diferentes (pedir um café, negociar um contrato, discutir um artigo científico). É o tamanho e a qualidade do seu repertório. Proficiência se mede por níveis, e o padrão internacional é o QECR, que vamos ver logo abaixo.
Fluência: a velocidade e a naturalidade com que você usa o que sabe
Fluência, no sentido técnico, é a capacidade de usar a língua em tempo real, sem esforço e sem travar: falar num ritmo confortável, sem pausas longas no meio das frases, sem ficar montando cada frase na cabeça antes de abrir a boca. O pesquisador Norman Segalowitz separa três camadas:
- Fluência cognitiva: a eficiência dos processos mentais por trás da fala: com que velocidade você acessa palavras e monta frases.
- Fluência do enunciado: o que dá para medir na gravação: velocidade da fala, número e duração das pausas, hesitações, reformulações.
- Fluência percebida: a impressão que o ouvinte tem de você.
Na pesquisa, o desempenho na língua costuma ser descrito por três dimensões, o modelo CAF: complexidade (o quão sofisticado é o que você usa), acurácia (o quão correto) e fluência (o quão rápido e fluido). Elas competem pela mesma atenção limitada: quando você se concentra em falar sem erro, tende a falar mais devagar; quando se solta para falar rápido, erra mais.
Os quatro perfis
Como são coisas diferentes, dá para ter uma sem a outra:
- Pouca proficiência, muita fluência: a pessoa que morou um ano fora, fala rápido, sem medo, com vocabulário limitado e muitos erros fossilizados. Comunica bem no dia a dia, trava numa reunião técnica.
- Muita proficiência, pouca fluência: o clássico brasileiro que estudou anos, lê artigos técnicos sem dificuldade, tira nota alta em prova escrita, e na hora de falar demora, trava e “pensa em português”. Sabe muito, mas o conhecimento não está automatizado.
- Pouca das duas: o começo de todo mundo.
- Muita das duas: o objetivo.
A lição prática: proficiência se constrói com conhecimento novo (palavras, estruturas, contato com a língua); fluência se constrói repetindo o que você já sabe, sob pressão de tempo, até ficar automático. São treinos diferentes. Quem só estuda conteúdo novo nunca fica fluente; quem só conversa com o que já sabe estaciona no nível em que está. O perfil 2, tão comum no Brasil, é exatamente o de quem nunca fez treino de fluência.
Uma analogia: proficiência é o tamanho do seu guarda roupa; fluência é a velocidade com que você se veste. Ter muita roupa e demorar uma hora para escolher não resolve; se vestir em dois minutos com três peças também não.
Como se mede nível: o QECR
O Quadro Europeu Comum de Referência para Línguas (QECR, ou CEFR em inglês) é a régua usada por praticamente todos os exames, escolas e empresas. Ele descreve seis níveis por meio de descritores do tipo “consegue fazer”, e a versão atualizada (o Companion Volume, de 2020) acrescentou um nível Pre A1, descritores de mediação (explicar para alguém o que outra pessoa disse ou escreveu) e trocou o ideal de “falar como nativo” por inteligibilidade na parte de pronúncia.
- A1, iniciante: entende e usa expressões do dia a dia e frases muito simples. Se apresenta, pergunta e responde sobre detalhes pessoais, se o outro falar devagar e ajudar. My name is Ana. I’m from Recife. I work in a bank. (Meu nome é Ana. Sou de Recife. Trabalho num banco.)
- A2, básico: frases e expressões ligadas a áreas imediatas (família, compras, trabalho, região). Comunica em tarefas simples e rotineiras. Last weekend I visited my parents and we had lunch together. (No fim de semana passado visitei meus pais e almoçamos juntos.)
- B1, intermediário: entende os pontos principais de assuntos familiares, se vira na maioria das situações de viagem, conta experiências, dá opiniões e justificativas curtas. I think remote work is better because I don’t waste time in traffic. (Acho que trabalho remoto é melhor porque não perco tempo no trânsito.)
- B2, intermediário superior: entende as ideias principais de textos complexos, inclusive discussões técnicas da sua área, e interage com fluência e espontaneidade suficientes para conversar com nativos sem esforço para nenhum dos lados. É o nível mínimo pedido pela maioria das empresas internacionais e universidades. Although the project was delayed, we managed to deliver the main features on time. (Embora o projeto tenha atrasado, conseguimos entregar as funcionalidades principais no prazo.)
- C1, avançado: entende textos longos e exigentes, percebe sentidos implícitos, se expressa de forma fluente e espontânea sem procurar palavras de forma óbvia, usa a língua com flexibilidade no trabalho e na vida acadêmica. Had we known about the outage earlier, we would have rolled back the release. (Se tivéssemos sabido da queda antes, teríamos revertido a versão.)
- C2, proficiente: entende praticamente tudo o que ouve ou lê, resume informações de várias fontes, se expressa com precisão e nuance mesmo em situações complexas. Não significa “igual a nativo”; muitos nativos não escreveriam um texto acadêmico em nível C2.
Quanto tempo leva
A Cambridge estima as horas guiadas de aprendizado acumuladas para chegar a cada nível, contando aulas e estudo orientado (sem contar todo o contato com a língua fora disso): cerca de 180 a 200 horas para A2, 350 a 400 para B1, 500 a 600 para B2, 700 a 800 para C1 e 1.000 a 1.200 para C2. São médias; brasileiros têm uma vantagem real por causa do enorme vocabulário de origem latina compartilhado (information, important, possible, necessary), e uma desvantagem na pronúncia e na compreensão oral.
Repare na curva: cada nível custa mais que o anterior. Sair do B1 para o B2 custa mais que sair do A1 para o A2, e chegar ao C1 custa mais ainda. É o motivo do famoso platô intermediário: o progresso continua acontecendo, mas fica menos visível.
O retrato do Brasil
No EF English Proficiency Index de 2025, o Brasil ficou em 75º lugar entre 123 países, na faixa de proficiência baixa, e entre os últimos da América Latina. Os números por habilidade contam a história do perfil 2: leitura é a mais forte (516 pontos), seguida de compreensão oral (468), fala (464) e escrita (442). Lemos melhor do que entendemos e produzimos. É justamente onde o roteiro abaixo vai insistir.
O que a pesquisa mostra (e o que ela desmente)
A área de aquisição de segunda língua tem décadas de estudos, e algumas conclusões são sólidas.
Input compreensível é a base
A ideia mais influente da área, do linguista Stephen Krashen, é que a língua é adquirida principalmente ao entender mensagens: ouvir e ler muita coisa que você compreende, com um pouco acima do seu nível. A versão forte da teoria (de que só o input importa e estudar regras é inútil) foi muito criticada, mas a parte central se sustenta: sem muita exposição compreensível, não há aquisição. Ninguém chega ao B2 com algumas horas de aula por semana e nada mais.
O detalhe importante é o “compreensível”. Estudos de Paul Nation e colegas mostram que, para entender um texto sem ajuda e ainda conseguir aprender palavras novas pelo contexto, você precisa conhecer cerca de 95% a 98% das palavras dele. Com 80%, o texto vira uma tortura de dicionário. Assistir a uma série sem legenda quando você entende 40% não é input; é barulho.
Mas output e interação também são necessários
Outros pesquisadores mostraram o que falta no input puro. Merrill Swain, estudando alunos de imersão no Canadá que ouviam francês o dia inteiro há anos e mesmo assim falavam com muitos erros, propôs a hipótese do output: é ao tentar produzir que você percebe o que não sabe dizer (o “buraco”), testa hipóteses e é forçado a processar a gramática, e não só o sentido. Michael Long propôs a hipótese da interação: na conversa, quando a comunicação falha e os dois negociam o sentido (“como assim?”, “você quis dizer…?”), o aprendiz recebe exatamente o input e o feedback de que precisa.
Perceber é o primeiro passo
Richard Schmidt, aprendendo português no Brasil, registrou num diário que só começava a usar uma estrutura depois de notá-la conscientemente no input. É a hipótese do noticing: o que passa despercebido não vira aprendizado. Por isso prestar atenção na forma (não só no sentido) acelera muito: perceber que o nativo disse I’ve been waiting e não I’m waiting, ou in the morning e não on the morning.
Instrução explícita funciona
Meta-análises grandes (como a de Norris e Ortega, de 2000, e as que vieram depois) mostram que ensinar regras e chamar atenção para a forma tem efeito real e duradouro, maior que só a exposição. Não é “gramática ou conversa”: é gramática a serviço da comunicação, e depois muita prática para automatizar.
Conhecimento vira habilidade com prática
A teoria da aquisição de habilidades (Robert DeKeyser) trata a língua como qualquer outra habilidade complexa, como dirigir ou tocar um instrumento: primeiro você tem conhecimento declarativo (“o present perfect se forma com have mais particípio”), depois, com prática deliberada, ele vira procedimental (você usa sem pensar) e, por fim, automático. É a ponte entre proficiência e fluência.
As quatro vertentes de Paul Nation
O modelo mais útil para organizar o estudo vem de Paul Nation, talvez o maior pesquisador vivo de vocabulário. Um bom programa de línguas divide o tempo, mais ou menos igualmente, entre quatro vertentes:
- Input focado em sentido: ouvir e ler muito, em nível compreensível, prestando atenção na mensagem.
- Output focado em sentido: falar e escrever para comunicar algo de verdade.
- Aprendizado focado na língua: estudo deliberado de vocabulário, gramática, pronúncia, com feedback.
- Desenvolvimento de fluência: usar material fácil e já conhecido, sob pressão de tempo, para ganhar velocidade.
A maioria dos cursos tradicionais gasta quase tudo na vertente 3. A maioria dos autodidatas da internet gasta quase tudo na 1. Quase ninguém faz a 4. O roteiro deste texto é organizado em cima das quatro.
Memória: espaçamento e recuperação
Duas descobertas da psicologia cognitiva valem para qualquer aprendizado, e muito para vocabulário:
- Efeito do espaçamento: revisar em intervalos crescentes (um dia, três dias, uma semana, um mês) fixa muito melhor que estudar tudo de uma vez. Estudos de Cepeda e colegas mostram que o intervalo ideal cresce com o tempo que você quer lembrar.
- Prática de recuperação (retrieval practice): tentar lembrar fortalece a memória muito mais que reler. Roediger e Karpicke mostraram em 2006 que alunos que se testavam lembravam bem mais, uma semana depois, do que alunos que reliam o mesmo texto várias vezes, mesmo se sentindo menos confiantes. Reler dá sensação de domínio; tentar lembrar dá domínio.
Os aplicativos de repetição espaçada (Anki é o mais conhecido) juntam as duas coisas: mostram o cartão, você tenta lembrar, e o algoritmo agenda a próxima revisão. Os algoritmos modernos, como o FSRS, preveem o esquecimento de cada cartão com bastante precisão.
Feedback corretivo ajuda
Meta-análises sobre correção de erros mostram que o feedback corretivo funciona, especialmente quando leva o aluno a se corrigir (um “como?”, uma pista sobre o erro) em vez de só dar a forma certa e seguir em frente. Quem nunca recebe correção tende a fossilizar erros: eles viram parte do seu inglês e ficam cada vez mais difíceis de tirar.
Os mitos
- “Adulto não aprende língua.” Falso. Um estudo enorme de Hartshorne, Tenenbaum e Pinker (2018), com quase 670 mil pessoas, sugere que a capacidade de aprender gramática fica muito alta até o fim da adolescência e cai depois disso, mas o mesmo estudo e muitos outros mostram adultos chegando a níveis altíssimos. Adultos, aliás, aprendem mais rápido no começo do que crianças, porque conseguem usar regras e estratégias. O que fica realmente mais difícil depois de adulto é perder o sotaque por completo, e isso não importa, como vamos ver.
- “Aprenda como uma criança, sem gramática.” Uma criança passa milhares de horas imersa, com adultos falando com ela o dia inteiro, e mesmo assim leva anos. Você não tem esse tempo. A instrução explícita é um atalho que a criança não tem.
- “Estilos de aprendizagem” (visual, auditivo, cinestésico). Uma revisão famosa de Pashler e colegas (2008) não encontrou evidência de que ensinar no “estilo” preferido de cada um melhore o aprendizado. Todo mundo precisa ouvir para aprender a ouvir e falar para aprender a falar.
- “Só imersão resolve.” Morar fora sem estudar produz o perfil 1: fluente e cheio de erros. Imersão é ótima, mas precisa vir com atenção à forma.
- “Precisa ter sotaque americano (ou britânico).” A pesquisa de Munro e Derwing mostra que sotaque, inteligibilidade e compreensibilidade são coisas diferentes: dá para ter sotaque forte e ser perfeitamente entendido. O objetivo moderno é ser inteligível, não ser confundido com nativo. A maioria das conversas em inglês no mundo hoje acontece entre falantes não nativos.
O mapa completo: tudo o que existe para aprender
1. Pronúncia
Pronúncia é a habilidade mais negligenciada pelos brasileiros e a que mais afeta a compreensão oral: você tem dificuldade de entender sons que não sabe produzir nem distinguir. A meta não é sotaque nativo, é inteligibilidade, e há um núcleo de pontos que mais derrubam a compreensão.
O alfabeto fonético
O inglês não se escreve como se fala: though, through, tough e thought têm o mesmo “ough” e quatro pronúncias diferentes. Aprender o Alfabeto Fonético Internacional (IPA) para os cerca de 44 sons do inglês é um investimento de poucas horas que serve para a vida inteira: todo dicionário bom mostra a pronúncia em IPA, e você para de adivinhar.
Vogais
O português tem 7 vogais orais; o inglês tem por volta de 12 vogais simples, mais os ditongos. Várias diferenças que o inglês usa para distinguir palavras não existem para nós, e o ouvido brasileiro junta sons que deveriam ser separados. Os pares mínimos (palavras que só mudam por um som) são o treino clássico:
- ship (navio) e sheep (ovelha); live (viver) e leave (sair); bit (pedaço) e beat (bater).
- full (cheio) e fool (tolo); pull (puxar) e pool (piscina).
- bad (ruim) e bed (cama); man (homem) e men (homens); sad (triste) e said (disse).
- cut (cortar) e cat (gato) e cot (berço).
- walk (andar) e work (trabalhar), clássico de confusão para brasileiros.
O som mais comum do inglês é o schwa, a vogal neutra e relaxada que aparece em quase toda sílaba sem acento: o “a” de about, o “e” de taken, o “o” de today, o “u” de supply. Quem pronuncia todas as vogais “cheias” soa robótico e, pior, não reconhece as palavras quando o nativo as reduz.
Consoantes que dão trabalho a brasileiros
- Os dois “th”: o surdo de think (pensar), three (três), thanks (obrigado), e o sonoro de this (isto), the (o, a), mother (mãe). Trocar por “t”, “f”, “d” ou “s” é comum e, em geral, compreensível pelo contexto, mas think e sink (afundar/pia), three e tree (árvore) podem confundir.
- H e R: em inglês, o H de house é um sopro, parecido com o R de “rato” no sotaque carioca, e o R é retroflexo, com a língua curvada sem tocar no céu da boca. O resultado da confusão: hat (chapéu) vira rat (rato), e head (cabeça) vira red (vermelho).
- Consoante final: o português quase não termina palavras em consoante, e o brasileiro acrescenta um “i” no fim: Facebook vira “feicibuqui”, dog vira “dógui”, big vira “bígui”. Treinar terminar a palavra na consoante muda muito a inteligibilidade.
- M e N no fim: em time (tempo) e him (ele), os lábios se fecham no M; o brasileiro tende a nasalizar a vogal e não fechar, e him soa como “rim”.
- L no fim de sílaba: em people (pessoas), milk (leite), feel (sentir), o L é pronunciado com a língua tocando atrás dos dentes, o chamado L escuro. O brasileiro tende a vocalizar como “u”: feel vira “fiu”.
- S no começo: o inglês tem palavras que começam com S seguido de consoante, e o brasileiro acrescenta um “i” antes: school vira “iscúl”, Spain vira “Ispein”.
Terminações -ed e -s
São regras curtas com impacto enorme:
- Passado com -ed tem três pronúncias: som de /t/ depois de sons surdos, como em worked (trabalhou), stopped (parou), watched (assistiu); som de /d/ depois de sons sonoros, como em played (jogou), called (ligou), loved (amou); e uma sílaba a mais, /ɪd/, só depois de T ou D, como em wanted (quis), needed (precisou), decided (decidiu). Dizer “uórquedi” para worked é um dos erros mais marcantes de brasileiros.
- Plural e terceira pessoa com -s também têm três: /s/ em cats (gatos), works (trabalha); /z/ em dogs (cachorros), plays (joga); e /ɪz/ em buses (ônibus), watches (assiste), changes (muda).
Acento das palavras
No inglês, a sílaba tônica muda o reconhecimento da palavra mais do que o som exato das vogais. Um erro de acento confunde mais que um “th” errado. E o acento se move entre palavras da mesma família: PHOtograph (fotografia), phoTOgraphy (fotografia, a arte), photoGRAphic (fotográfico). Em vários pares, o acento muda a classe da palavra: a REcord (um registro) e to reCORD (gravar); a PREsent (um presente) e to preSENT (apresentar); an OBject (um objeto) e to obJECT (objetar). Palavras parecidas com o português frequentemente têm o acento em outro lugar: deVElop (desenvolver), e não “DÉvelop”; COMfortable (confortável), com acento na primeira e a segunda sílaba quase sumindo; VEgetable (legume).
Ritmo, formas fracas e fala conectada
O inglês é uma língua de ritmo acentual: as sílabas tônicas vêm em intervalos mais ou menos regulares, e as palavras sem acento são espremidas entre elas. As palavras gramaticais (artigos, preposições, auxiliares, pronomes) quase sempre aparecem em forma fraca, com schwa:
- I can swim soa como “ai kən SUIM” (eu sei nadar), com o can reduzido; I can’t swim tem o can’t forte (eu não sei nadar). É a vogal e o acento, não o T final, que fazem a diferença na fala rápida.
- a cup of tea soa como “ə CÂP ə TI” (uma xícara de chá).
- What do you want to do? soa como “uádəiə UÓNə DU?” (o que você quer fazer?).
E as palavras se juntam na fala conectada:
- Ligação: consoante final se liga à vogal seguinte. Turn it off soa como “tər ni tóf” (desliga isso).
- Elisão: sons somem. Next day vira “nécs dei” (no dia seguinte); last night vira “lés nait” (ontem à noite).
- Assimilação: sons se transformam pelo vizinho. Did you vira “dídja” (você…?, no passado); Don’t you vira “dôntcha”; want to vira wanna, going to vira gonna, got to vira gotta.
- Flap americano: no inglês americano, T e D entre vogais viram um som parecido com o R de “caro”: water soa como “uórər” (água), better como “bérər” (melhor), a lot of como “ə lárəv” (muito).
É por isso que você entende o professor e não entende o filme: o professor fala as palavras separadas e cheias; o filme fala com tudo isso ao mesmo tempo. Ouvir sem conhecer essas regras é como tentar ler um texto sem espaços entre as palavras.
Entonação
A melodia da frase carrega sentido: a entonação descendente no fim de uma pergunta com wh (Where do you LIVE?, onde você mora?), ascendente em perguntas de sim ou não (Do you live HERE?, você mora aqui?), e o acento de foco, que muda o sentido da mesma frase: I didn’t say he stole the money significa coisas diferentes conforme a palavra destacada. I didn’t SAY he stole the money (eu não disse, talvez tenha insinuado); I didn’t say HE stole the money (eu não disse que foi ele); I didn’t say he stole the MONEY (eu não disse que foi o dinheiro que ele roubou).
2. Vocabulário
Vocabulário é o maior componente da proficiência. Dá para se comunicar com gramática ruim e bom vocabulário; o contrário, não.
Quantas palavras
Os estudos de Paul Nation dão números concretos, contados em famílias de palavras (work, works, worked, working, worker contam como uma família):
- As 1.000 famílias mais frequentes cobrem perto de 80% a 85% de uma conversa comum.
- As 2.000 a 3.000 mais frequentes cobrem cerca de 95% da fala do dia a dia. É o alvo do nível B1.
- Para cerca de 98% de cobertura, você precisa de 6.000 a 7.000 famílias para a fala (filmes, séries, conversas) e 8.000 a 9.000 para a escrita (livros, jornais). É território de C1.
- Um nativo adulto escolarizado conhece por volta de 20.000 famílias.
A lição: frequência é tudo no começo. As primeiras 2.000 palavras valem mais que todas as outras juntas para conversar. Depois, entram as palavras da sua área (um profissional de tecnologia precisa de deploy, outage, throughput, rollback muito antes de daffodil), e listas acadêmicas, como a Academic Word List, para quem vai estudar ou ler artigos.
Saber uma palavra é mais que saber a tradução
Nation descreve três dimensões do que é conhecer uma palavra: forma (como se fala, como se escreve, de que partes é feita), significado (o conceito, a que coisas se refere, que associações traz) e uso (com que gramática aparece, com que outras palavras costuma andar, em que registro e com que frequência). Saber que make é “fazer” é saber 10% da palavra.
Colocações: as palavras andam em grupos
Colocações são combinações que os nativos preferem por costume, sem regra lógica. São o que separa um inglês correto de um inglês natural:
- make a decision (tomar uma decisão), não take a decision na maioria dos contextos americanos; make a mistake (cometer um erro); make money (ganhar dinheiro); make an effort (fazer um esforço).
- do homework (fazer lição de casa); do the dishes (lavar a louça); do business (fazer negócios); do someone a favor (fazer um favor a alguém).
- take a shower (tomar banho), take a photo (tirar uma foto), take a break (fazer uma pausa), take notes (tomar notas).
- heavy rain (chuva forte), não strong rain; strong coffee (café forte), não heavy coffee; heavy traffic (trânsito pesado); a high price (um preço alto); a big mistake (um erro grave).
- pay attention (prestar atenção), catch a cold (pegar um resfriado), keep a promise (cumprir uma promessa), run a business (administrar um negócio).
Chunks: aprenda frases, não palavras soltas
Boa parte da fala nativa é feita de blocos prontos (chunks, ou linguagem formulaica): sequências que vêm inteiras da memória, sem serem montadas na hora. É por isso que nativos falam rápido. E é a melhor estratégia de fluência para quem aprende: guardar e treinar blocos inteiros.
- It depends on… (depende de…)
- As far as I know… (até onde eu sei…)
- I was wondering if you could… (eu queria saber se você poderia…)
- To be honest… (para ser sincero…)
- It’s not a big deal. (Não é nada demais.)
- I’m looking forward to it. (Estou ansioso por isso, no sentido bom.)
- That makes sense. (Faz sentido.)
- Let me get back to you on that. (Deixa eu te dar um retorno sobre isso.)
- What do you mean by…? (O que você quer dizer com…?)
- Would you mind if I…? (Você se importa se eu…?)
Phrasal verbs
Verbos com partícula (up, out, off, on, down, over…) são onipresentes na fala e um terror para quem aprende, porque o sentido muitas vezes não é a soma das partes. A boa notícia: as partículas têm sentidos recorrentes. Up frequentemente indica completar ou aumentar, out indica sair ou acabar, off indica separar ou desligar, on indica continuar ou ligar.
- give up (desistir): Don’t give up now. (Não desista agora.)
- look up (procurar uma informação): I looked it up on the internet. (Pesquisei isso na internet.)
- run out of (ficar sem): We ran out of coffee. (Ficamos sem café.)
- put off (adiar): Stop putting it off. (Pare de adiar isso.)
- figure out (descobrir, entender): I can’t figure out what’s wrong. (Não consigo descobrir o que está errado.)
- find out (descobrir uma informação): I found out he was lying. (Descobri que ele estava mentindo.)
- turn down (recusar; abaixar o volume): She turned down the offer. (Ela recusou a oferta.)
- carry on (continuar): Carry on, I’m listening. (Continua, estou ouvindo.)
- come up with (ter uma ideia, inventar): He came up with a great solution. (Ele teve uma ótima solução.)
- get along with (se dar bem com): I get along with my boss. (Eu me dou bem com o meu chefe.)
- set up (configurar, montar): Can you set up the new laptop? (Você pode configurar o notebook novo?)
- break down (quebrar, ter um colapso): The car broke down on the highway. (O carro quebrou na estrada.)
Alguns são separáveis, e com pronome o pronome vai no meio: Turn off the light ou Turn the light off (apague a luz), mas só Turn it off, nunca Turn off it.
Expressões idiomáticas
Úteis no nível B2 em diante, principalmente para entender. Para usar, cuidado: idiomas mal empregados soam forçados.
- It’s a piece of cake. (É moleza.)
- Break a leg! (Boa sorte!, antes de uma apresentação.)
- Let’s call it a day. (Vamos encerrar por hoje.)
- I’m on the fence. (Estou em cima do muro.)
- It costs an arm and a leg. (Custa os olhos da cara.)
- Don’t beat around the bush. (Não enrola.)
- We’re on the same page. (Estamos alinhados.)
Falsos cognatos
O vocabulário latino compartilhado é uma vantagem enorme do brasileiro, mas tem armadilhas clássicas:
- actually = na verdade (não “atualmente”, que é currently ou nowadays).
- pretend = fingir (não “pretender”, que é intend ou plan).
- push = empurrar (não “puxar”, que é pull).
- eventually = no fim das contas, finalmente (não “eventualmente”, que é occasionally).
- library = biblioteca (livraria é bookstore).
- parents = pais, pai e mãe (parentes são relatives).
- college = faculdade (colégio é high school).
- exquisite = requintado, refinado (não “esquisito”, que é weird ou strange).
- sensible = sensato (sensível é sensitive).
- realize = perceber, se dar conta (realizar é carry out, achieve, accomplish).
- lunch = almoço (lanche é snack).
- assist = ajudar (assistir é watch ou attend).
- attend = comparecer (não “atender”, que é answer o telefone ou serve um cliente).
- fabric = tecido (fábrica é factory).
- prejudice = preconceito (prejuízo é loss ou damage).
- costume = fantasia (costume é habit ou custom).
- legend = lenda, ou a legenda de um mapa (legenda de filme é subtitles).
- notice = perceber, aviso (notícia é news).
- appointment = compromisso, consulta marcada (apontamento é note).
- exit = saída (sucesso é success).
Registro: formal, neutro, informal
A mesma ideia muda de forma conforme o contexto:
- Kids (informal), children (neutro), offspring (formal ou técnico): filhos, crianças.
- Get (informal), receive (neutro), obtain (formal): receber, conseguir.
- Find out (informal), discover (neutro), ascertain (formal): descobrir.
- Hey, can you send me the file? (Ei, me manda o arquivo?) versus Could you please send me the file? (Você poderia, por favor, me enviar o arquivo?) versus I would be grateful if you could send me the file. (Eu agradeceria se você pudesse me enviar o arquivo.)
Phrasal verbs costumam ser mais informais que seus equivalentes latinos, o que dá ao brasileiro uma tendência a soar formal demais na fala: dizer I will return at five quando um nativo diria I’ll be back at five (volto às cinco).
3. Gramática
A gramática do inglês é, no geral, mais simples que a do português: verbos quase não se conjugam, não há gênero gramatical para substantivos e adjetivos, adjetivo não concorda com nada. A dificuldade está em outros lugares: tempos verbais que dividem o tempo de outro jeito, artigos, preposições e a ordem rígida das palavras. Abaixo, os tópicos em ordem aproximada de aprendizado, com o nível em que costumam aparecer.
A estrutura da frase (A1)
O inglês tem ordem rígida sujeito, verbo, objeto, e o sujeito é obrigatório. Não existe “está chovendo” sem sujeito: It’s raining. (Está chovendo.) It’s late. (Está tarde.) It’s important to rest. (É importante descansar.) E “tem” no sentido de existir é there is e there are: There is a problem with the server. (Tem um problema no servidor.) There are three people in the room. (Tem três pessoas na sala.) Dizer Have a problem ou It has three people é um dos erros mais típicos de brasileiros.
Adjetivo vem antes do substantivo e não vai para o plural: a red car (um carro vermelho), two red cars (dois carros vermelhos).
O verbo to be (A1)
I am, you are, he/she/it is, we are, they are. Ele faz o papel de “ser” e de “estar”, e aparece em lugares onde o português usa “ter”: I’m 30 years old. (Tenho 30 anos.) I’m hungry. (Estou com fome.) I’m cold. (Estou com frio.) I’m right. (Tenho razão.) Are you afraid? (Você está com medo?)
Perguntas e negativas com do (A1)
Com o verbo to be e com os modais, a pergunta inverte a ordem: You are tired vira Are you tired? (Você está cansado?). Com todos os outros verbos, entra o auxiliar do, does ou did, e o verbo principal volta para a forma básica: You work here. vira Do you work here? (Você trabalha aqui?); She likes coffee vira Does she like coffee? (Ela gosta de café?) e She doesn’t like coffee. (Ela não gosta de café.); They went home vira Did they go home? (Eles foram para casa?).
O erro clássico é duplicar o tempo verbal: Does she likes? e Did they went? estão errados; o auxiliar já carrega o tempo e a pessoa.
Perguntas com palavras interrogativas seguem a mesma lógica: Where do you live? (Onde você mora?) What did you say? (O que você disse?) How long have you been here? (Há quanto tempo você está aqui?). E, quando a pergunta é sobre o sujeito, não há auxiliar: Who called you? (Quem te ligou?), não Who did call you?
Presente simples e presente contínuo (A1 e A2)
- Presente simples: hábitos, rotinas, verdades gerais, estados. I work from home on Fridays. (Trabalho de casa às sextas.) Water boils at 100 degrees. (A água ferve a 100 graus.) Na terceira pessoa do singular, entra o S: She works, he goes, it costs.
- Presente contínuo: o que está acontecendo agora ou num período temporário. I’m working on a new project. (Estou trabalhando num projeto novo.) She’s living with her parents this month. (Ela está morando com os pais neste mês.)
Verbos de estado (know, like, want, need, believe, understand, own) normalmente não vão para o contínuo: I know the answer (eu sei a resposta), não I’m knowing. I understand (eu entendo), não I’m understanding.
Passado simples (A2)
Ações terminadas num momento definido do passado. Verbos regulares levam -ed: I worked yesterday. (Trabalhei ontem.) Os irregulares precisam ser decorados, e os mais frequentes vêm primeiro: go, went (ir, foi); have, had; make, made; say, said; get, got; see, saw; take, took; come, came; know, knew; think, thought; buy, bought; tell, told. Algumas dezenas cobrem a grande maioria dos usos.
Present perfect: o grande obstáculo do brasileiro (A2 a B1)
O português não tem um tempo equivalente, e é por isso que ele é tão difícil. O present perfect (have mais particípio) liga o passado ao presente. Ele aparece em quatro situações principais:
- Experiência de vida, sem tempo definido: Have you ever been to Japan? (Você já foi ao Japão?) I’ve never eaten sushi. (Nunca comi sushi.)
- Algo que começou no passado e continua até agora, com for e since: I’ve lived here for five years. (Moro aqui há cinco anos.) She’s worked at the company since 2020. (Ela trabalha na empresa desde 2020.) Repare: o português usa o presente (“moro aqui há cinco anos”) e o inglês usa o present perfect. Dizer I live here for five years é um dos erros mais comuns de brasileiros.
- Passado recente com resultado no presente: I’ve lost my keys. (Perdi minhas chaves, e continuo sem elas.) He’s just arrived. (Ele acabou de chegar.)
- Com already, yet e still: Have you finished yet? (Você já terminou?) I’ve already sent the email. (Já mandei o e-mail.) I haven’t decided yet. (Ainda não decidi.)
A regra de ouro: se há um momento definido no passado, é passado simples. I’ve seen that movie (já vi esse filme), mas I saw that movie last week (vi esse filme semana passada). Nunca I’ve seen it yesterday. (O inglês britânico usa o present perfect um pouco mais que o americano em casos de passado recente, mas a regra do tempo definido vale para os dois.)
A variação contínua enfatiza a duração de uma atividade: I’ve been waiting for an hour. (Estou esperando há uma hora.) What have you been doing lately? (O que você tem feito ultimamente?)
For, since e ago
- for = duração: for two hours (por duas horas, há duas horas).
- since = ponto de partida: since Monday (desde segunda).
- ago = quanto tempo atrás, com passado simples: I arrived two hours ago. (Cheguei há duas horas.)
O “há” do português vira três coisas diferentes no inglês: I’ve worked here for two years (trabalho aqui há dois anos) e I started two years ago (comecei há dois anos).
Passado contínuo e past perfect (B1)
- Passado contínuo: uma ação em andamento no passado, muitas vezes interrompida. I was cooking when you called. (Eu estava cozinhando quando você ligou.)
- Past perfect: o passado do passado. When I arrived, the meeting had already started. (Quando cheguei, a reunião já tinha começado.)
Futuro (A2 a B1)
O inglês não tem um tempo futuro único; tem várias formas, com nuances:
- will: decisão no momento, previsão, promessa, oferta. I’ll call you later. (Te ligo mais tarde.) It will probably rain. (Provavelmente vai chover.)
- be going to: plano já decidido, ou previsão com evidência. I’m going to study medicine. (Vou estudar medicina.) Look at those clouds, it’s going to rain. (Olha essas nuvens, vai chover.)
- Presente contínuo: compromisso marcado. I’m meeting the client tomorrow at ten. (Vou me encontrar com o cliente amanhã às dez.)
- Presente simples: horários e programações fixas. The train leaves at 8. (O trem sai às 8.)
E depois de when, if, as soon as, before, after, falando do futuro, usa-se o presente, não o will: I’ll call you when I arrive. (Te ligo quando eu chegar.) Não when I will arrive. É o lugar onde o português usa o futuro do subjuntivo.
Verbos modais (A2 a B2)
Modais (can, could, may, might, must, should, would, will, shall) não levam S na terceira pessoa, não usam do em perguntas e são seguidos do verbo sem to.
- can, capacidade e permissão: I can speak three languages. (Sei falar três línguas.) Can I sit here? (Posso sentar aqui?)
- could, capacidade no passado, pedido educado, possibilidade: Could you help me? (Você poderia me ajudar?) It could be a network issue. (Pode ser um problema de rede.)
- should, conselho: You should talk to your manager. (Você deveria falar com o seu gerente.)
- must e have to, obrigação: I have to leave at six. (Tenho que sair às seis.) Cuidado com a negativa: You mustn’t touch that (você não pode tocar nisso, é proibido) é muito diferente de You don’t have to come (você não precisa vir).
- might e may, possibilidade: I might be late. (Talvez eu me atrase.)
- Modais no passado, com have mais particípio (B2): You should have told me. (Você devia ter me contado.) He must have forgotten. (Ele deve ter esquecido.) It might have been a mistake. (Pode ter sido um engano.) I could have done better. (Eu poderia ter feito melhor.)
Condicionais (B1 a C1)
- Zero, verdades gerais: If you heat ice, it melts. (Se você esquenta gelo, ele derrete.)
- Primeira, situações reais e prováveis: If it rains, I’ll stay home. (Se chover, vou ficar em casa.)
- Segunda, situações hipotéticas no presente ou futuro: If I had more time, I would learn the guitar. (Se eu tivesse mais tempo, aprenderia violão.) If I were you, I would accept the offer. (Se eu fosse você, aceitaria a oferta.)
- Terceira, passado que não aconteceu: If I had studied, I would have passed. (Se eu tivesse estudado, teria passado.)
- Mistas (C1): If I had taken that job, I would be living in London now. (Se eu tivesse aceitado aquele emprego, estaria morando em Londres agora.)
E as formas sem if, mais formais: Had I known, I would have come. (Se eu soubesse, teria vindo.) Should you need anything, let me know. (Caso precise de algo, me avise.)
Voz passiva (B1)
be mais particípio. Usada quando quem faz a ação não importa ou não é conhecido, e muito comum em textos técnicos e jornalísticos. The bridge was built in 1990. (A ponte foi construída em 1990.) The issue has been fixed. (O problema foi corrigido.) The results will be published next week. (Os resultados serão publicados semana que vem.) English is spoken here. (Fala-se inglês aqui.)
Discurso indireto (B1 a B2)
Contar o que alguém disse, normalmente recuando um tempo verbal: “I’m tired,” she said. vira She said she was tired. (Ela disse que estava cansada.) “I’ll help you.” vira He said he would help me. (Ele disse que me ajudaria.) Perguntas indiretas não invertem: Where is the station? vira Could you tell me where the station is? (Você poderia me dizer onde fica a estação?), não where is the station.
Say e tell, make e do
- say é dizer algo; tell é dizer a alguém e exige a pessoa: She said that she was busy. She told me that she was busy. (Ela disse que estava ocupada; ela me disse que estava ocupada.) Nunca She said me.
- make é criar, produzir; do é executar tarefas e atividades. As colocações acima mostram os casos mais comuns.
Orações relativas (B1 a B2)
who para pessoas, which para coisas, that para os dois (em orações que definem), whose para posse, where para lugares. The man who called you is my boss. (O homem que te ligou é meu chefe.) The book that I’m reading is great. (O livro que estou lendo é ótimo.) The woman whose car was stolen called the police. (A mulher cujo carro foi roubado chamou a polícia.) Em orações que definem e quando o pronome é objeto, ele pode sumir: The book I’m reading is great.
Gerúndio ou infinitivo (B1 a B2)
Depois de alguns verbos vem o -ing; depois de outros, o to; e alguns mudam de sentido.
- Com -ing: enjoy, avoid, finish, mind, suggest, keep, consider. I enjoy reading. (Gosto de ler.) Would you mind waiting? (Você se importa de esperar?)
- Com to: want, decide, plan, hope, need, agree, refuse. I decided to leave. (Decidi ir embora.)
- Mudam de sentido: I stopped smoking. (Parei de fumar.) versus I stopped to smoke. (Parei para fumar.) I remember locking the door. (Lembro de ter trancado a porta.) versus Remember to lock the door. (Lembre de trancar a porta.) I tried calling him. (Tentei ligar para ele, como experimento.) versus I tried to open the window. (Tentei abrir a janela, com esforço.)
- Depois de preposição, sempre -ing: I’m interested in learning Python. (Tenho interesse em aprender Python.) Thank you for coming. (Obrigado por vir.) Inclusive com o to que é preposição: I’m looking forward to seeing you. (Estou ansioso para te ver.)
Used to, be used to e get used to (B1)
- used to mais verbo: hábito no passado que não existe mais. I used to smoke. (Eu fumava.)
- be used to mais -ing: estar acostumado. I’m used to waking up early. (Estou acostumado a acordar cedo.)
- get used to mais -ing: ir se acostumando. You’ll get used to it. (Você vai se acostumar.)
Artigos (A1 a C1)
Os artigos parecem simples e são uma das últimas coisas a ficarem perfeitas.
- a e an: um, uma, com substantivos contáveis no singular mencionados pela primeira vez ou de forma geral. an antes de som de vogal: an hour (uma hora), a university (uma universidade), an MBA.
- the: algo específico, que os dois sabem qual é. The meeting starts at ten. (A reunião começa às dez.)
- Sem artigo para generalizações com plural e incontáveis, onde o português usa o artigo: Dogs are loyal. (Os cachorros são leais.) Life is short. (A vida é curta.) I love music. (Amo música.) People are strange. (As pessoas são estranhas.) Dizer The life is short é erro típico.
- Profissões levam a: She’s a doctor. (Ela é médica.) Nunca She’s doctor.
Contáveis e incontáveis (A2 a B1)
Alguns substantivos incontáveis em inglês são contáveis em português, e não vão para o plural nem aceitam a: advice (conselhos): Can I give you some advice? ou a piece of advice (Posso te dar um conselho?); information (informações); news (notícias, e o verbo fica no singular: The news is good); furniture (móveis); equipment (equipamentos); feedback; research (pesquisas); homework; software; luggage (bagagem). Para quantidade: many e few com contáveis, much e little com incontáveis, a lot of com os dois.
Preposições (A1 a C2)
Não existe atalho: preposições são em grande parte colocações, e precisam ser aprendidas junto com as palavras. Os núcleos:
- Tempo: at para horas e momentos (at 5 pm, at night, at the weekend no britânico), on para dias e datas (on Monday, on May 3rd, on the weekend no americano), in para períodos maiores (in May, in 2026, in the morning, in the summer).
- Lugar: at para pontos (at the door, at work, at home), on para superfícies e linhas (on the table, on the wall, on the second floor), in para espaços fechados e áreas (in the room, in Brazil, in the car).
- Depois de adjetivos e verbos: depend on (depender de, não depend of), married to (casado com), good at (bom em), interested in (interessado em), afraid of (com medo de), different from (diferente de), arrive in uma cidade ou at um lugar (chegar a), listen to (escutar), wait for (esperar), think about (pensar em), dream of ou about (sonhar com).
Comparativos e superlativos (A2)
Palavras de uma sílaba levam -er e -est: fast, faster, the fastest. Palavras longas usam more e the most: expensive, more expensive, the most expensive. Irregulares: good, better, the best; bad, worse, the worst; far, further, the furthest. E as… as para igualdade: She’s as tall as her brother. (Ela é tão alta quanto o irmão.) Nunca more better.
Ordem de adjetivos e advérbios (B1)
Advérbios de frequência vêm antes do verbo principal e depois do to be: I usually wake up at seven. (Normalmente acordo às sete.) She is always late. (Ela está sempre atrasada.) Vários adjetivos seguem uma ordem tácita (opinião, tamanho, idade, forma, cor, origem, material, propósito): a beautiful old Italian car (um lindo carro italiano antigo), nunca an Italian old beautiful car.
Question tags e respostas curtas (B1)
You’re coming, aren’t you? (Você vem, né?) She didn’t call, did she? (Ela não ligou, ligou?) E respostas curtas com o auxiliar: Do you like it? Yes, I do. (Você gosta? Gosto.) Responder só Yes ou repetir o verbo principal (Yes, I like) soa estranho.
Estruturas avançadas (B2 a C2)
- Causativo: I had my car fixed. (Mandei consertar meu carro.) I’m getting my hair cut. (Vou cortar o cabelo, alguém vai cortar.) Dizer I cut my hair significa que você mesmo cortou.
- Wish e if only: I wish I had more time. (Queria ter mais tempo.) I wish you would stop. (Queria que você parasse.)
- Inversão para ênfase: Never have I seen such a mess. (Nunca vi uma bagunça dessas.) Not only did he lie, but he also blamed me. (Ele não só mentiu como também me culpou.)
- Clivadas: What I need is a break. (O que eu preciso é de uma pausa.) It was John who broke it. (Foi o John que quebrou.)
- Nominalização, típica da escrita formal e técnica: The implementation of the system caused a reduction in costs. (A implementação do sistema causou uma redução nos custos.) em vez de When we implemented the system, costs went down.
- Hedging, a arte de suavizar afirmações em textos acadêmicos e profissionais: The results suggest that… (Os resultados sugerem que…) It appears that… (Parece que…) This may be due to… (Isso pode se dever a…).
4. Os erros típicos de brasileiros
Um resumo do que mais aparece, do errado para o certo:
- I have 30 years. → I’m 30 (years old). (Tenho 30 anos.)
- Have a problem here. → There’s a problem here. (Tem um problema aqui.)
- Is raining. → It’s raining. (Está chovendo.)
- I live here for five years. → I’ve lived here for five years. (Moro aqui há cinco anos.)
- I’ve seen him yesterday. → I saw him yesterday. (Eu o vi ontem.)
- She don’t like it. → She doesn’t like it. (Ela não gosta.)
- Did you went? → Did you go? (Você foi?)
- The people are angry. / The life is hard. → People are angry. / Life is hard. (As pessoas estão bravas. A vida é difícil.)
- I’m agree. → I agree. (Concordo.)
- It depends of you. → It depends on you. (Depende de você.)
- Explain me this. → Explain this to me. (Me explica isso.)
- She said me. → She told me. (Ela me disse.)
- I’m used to wake up early. → I’m used to waking up early. (Estou acostumado a acordar cedo.)
- Informations, advices, softwares. → information, advice, software.
- I will call you when I will arrive. → I’ll call you when I arrive. (Te ligo quando chegar.)
- Make a question. → Ask a question. (Fazer uma pergunta.)
- Lose the bus. → Miss the bus. (Perder o ônibus.)
- I have doubts about the exercise. → I have questions about the exercise. (Tenho dúvidas sobre o exercício. Doubt em inglês é desconfiança, incerteza sobre se algo é verdade.)
- Speak to me no sentido de “me fala” → Tell me ou Let me know. (Me avisa.)
- Actually, I work in a bank querendo dizer “atualmente” → Currently, I work at a bank. (Atualmente trabalho num banco.)
- Can you borrow me your pen? → Can you lend me your pen? (Você me empresta sua caneta? Borrow é pegar emprestado; lend é emprestar.)
- How do you call this? → What do you call this? (Como se chama isso?)
- Since three years. → For three years. (Há três anos.)
- Very much people. → A lot of people. ou Many people. (Muitas pessoas.)
5. As quatro habilidades e a interação
Saber vocabulário e gramática é ter as peças; as habilidades são o uso das peças em tempo real.
Compreensão oral (listening)
É onde o brasileiro mais sofre, por três motivos: a fala conectada esconde as palavras que você conhece, o vocabulário oral é diferente do escrito (mais phrasal verbs, mais gírias, mais redução), e o ouvido não foi treinado a separar os sons. Existem dois processos, e os dois precisam de treino:
- Bottom up: reconhecer sons, separar palavras, identificar formas fracas. Treina com ditado, transcrição de trechos curtos e pares mínimos.
- Top down: usar contexto e conhecimento de mundo para prever e preencher o que não ouviu. Treina com muito volume de áudio sobre assuntos que você conhece.
E duas formas de ouvir: intensiva (um trecho curto, repetido várias vezes, até entender cada palavra, com transcrição) e extensiva (muito volume, em nível confortável, pelo prazer e pelo conteúdo: podcasts, séries, vídeos). A intensiva treina o ouvido; a extensiva dá a quantidade.
Compreensão escrita (reading)
É a habilidade mais forte dos brasileiros e o melhor motor de vocabulário que existe. A técnica com mais evidência é a leitura extensiva: ler muito, rápido, por prazer, em textos onde você conhece 98% das palavras, sem dicionário a cada linha. No começo, isso significa graded readers, livros reescritos para cada nível de vocabulário (as séries da Penguin, Oxford Bookworms, Cambridge). Depois, livros juvenis, depois livros para adultos e textos da sua área. Nation sugere algo como um livro graduado por semana para quem está construindo vocabulário. Some a isso a leitura intensiva: textos curtos lidos com atenção, analisando vocabulário e estrutura.
Fala (speaking)
Falar bem depende de três coisas: ter o que dizer (vocabulário e chunks), conseguir montar rápido (fluência) e se fazer entender (pronúncia e estratégias de comunicação). As técnicas que mais funcionam estão na próxima seção, mas duas ideias valem desde já:
- Estratégias de comunicação são uma habilidade em si. Quando faltar a palavra, descreva: It’s a thing you use to… (é uma coisa que você usa para…), It’s like a… but… (é tipo um… mas…), What’s the word for…? (qual é a palavra para…?). Peça esclarecimento: Sorry, could you say that again? (Desculpa, pode repetir?), Do you mean…? (Você quer dizer…?). Ganhe tempo com naturalidade: Let me think… (Deixa eu pensar…), That’s a good question. (Boa pergunta.), Well, the thing is… (Bom, a questão é…).
- Pensar em inglês não é um dom; é consequência de chunks automatizados. Ninguém “decide” pensar em inglês; você vai tendo cada vez mais blocos prontos que dispensam a tradução.
Escrita (writing)
A escrita é a habilidade mais fraca dos brasileiros no EF EPI e a mais importante no trabalho remoto, onde metade da comunicação é por mensagem e e-mail. O que treinar:
- Estrutura: em inglês, o parágrafo começa pela ideia principal (topic sentence) e a desenvolve; a escrita é mais direta e linear que a portuguesa. Frases longas com muitas orações encaixadas, comuns em português formal, ficam pesadas em inglês.
- Conectivos: however (no entanto), therefore (portanto), moreover (além disso), although (embora), whereas (enquanto, ao passo que), as a result (como resultado), on the other hand (por outro lado), in other words (em outras palavras).
- Gêneros: o e-mail profissional (I’m writing to follow up on…, escrevo para dar continuidade a…; Please find attached…, segue em anexo…; Let me know if you have any questions., me avise se tiver dúvidas), a mensagem de chat (curta, direta), o relatório, a documentação técnica, o texto acadêmico.
- Feedback: escrita sem correção fossiliza erros. Um professor, um colega, ou uma ferramenta de IA usada do jeito certo (mais abaixo).
Interação e pragmática
Falar não é fazer monólogos alternados. Pragmática é usar a língua de forma adequada à situação e às pessoas, e erros de pragmática são julgados com mais severidade que erros de gramática, porque o ouvinte acha que é grosseria, não falta de conhecimento.
- Pedidos indiretos. O inglês, especialmente o britânico e o americano corporativo, suaviza muito. Give me the report. (Me dá o relatório.) soa grosseiro; Could you send me the report when you get a chance? (Você pode me mandar o relatório quando puder?) é o normal.
- Discordar com educação: I see your point, but… (Entendo seu ponto, mas…), I’m not sure I agree. (Não sei se concordo.), Have you considered…? (Você já considerou…?). Um No, you’re wrong direto soa muito mais agressivo em inglês que em português.
- Suavizadores: just, a bit, maybe, I think, I was wondering. I just wanted to check if… (Só queria confirmar se…), It’s a bit late. (Está um pouco tarde.)
- Small talk: a conversa leve no começo de reuniões e encontros (How was your weekend?, como foi seu fim de semana?; How’s it going?, tudo certo?) tem função social. Responder How are you? com um relato detalhado da sua saúde também é erro de pragmática; o esperado é Good, thanks. You? (Bem, obrigado. E você?).
- Turnos de fala: como entrar na conversa (Can I just add something?, posso acrescentar uma coisa?), como devolver a palavra (What do you think?, o que você acha?), como sinalizar que está ouvindo (Right., I see., Makes sense.).
Mediação
A habilidade que o QECR destacou em 2020 e que é o dia a dia de quem trabalha com estrangeiros: explicar para um colega o que o cliente quis dizer, resumir uma reunião em inglês para a equipe em português, explicar um conceito técnico para alguém de fora da área, simplificar. In other words, what she’s saying is… (Em outras palavras, o que ela está dizendo é…)
As técnicas que realmente funcionam
Agora, o como. Cada técnica abaixo tem respaldo na pesquisa ou é aplicação direta dela, e está ligada a uma das quatro vertentes de Nation.
1. Repetição espaçada com frases, não com palavras soltas
Use um aplicativo de repetição espaçada (Anki, com o algoritmo FSRS ativado) para vocabulário e chunks. Os princípios que fazem diferença:
- Cartão com frase de exemplo e áudio, não palavra solta. Frente: I ran out of ___ (fiquei sem tempo). Verso: time, com o áudio da frase inteira.
- Produção, não só reconhecimento. Além de ver o inglês e lembrar o português, faça cartões do português para o inglês, que forçam a recuperação ativa.
- Palavras que você encontrou de verdade, na leitura e na escuta, e que são frequentes. Baralhos prontos gigantes com palavras raras desperdiçam tempo.
- Pouco e todo dia. Quinze a vinte minutos diários valem mais que três horas no domingo. Revise antes de adicionar cartões novos.
2. Leitura e escuta extensivas, no nível certo
O volume de input compreensível é o maior preditor de progresso. A regra é: se você entende menos de 90% sem esforço, está difícil demais para ser extensivo. Escolha material um pouco abaixo do que você acha que aguenta, e em grande quantidade. Uma técnica eficiente é o input estreito (narrow listening e narrow reading): consumir muito material sobre o mesmo assunto ou do mesmo autor. O vocabulário se repete, a compreensão sobe rápido e as palavras se fixam pela repetição natural.
Sobre legendas: legenda em português ajuda pouco no inglês; legenda em inglês ajuda bastante no começo, porque liga o som à forma escrita; sem legenda é o objetivo final. Uma boa progressão é assistir a um episódio com legenda em inglês e depois ao mesmo episódio sem legenda.
3. Shadowing
Desenvolvido como técnica de treinamento de intérpretes e estudado por Shuhei Kadota no Japão: você ouve um áudio e repete ao mesmo tempo, como uma sombra, imitando o ritmo, a entonação, as reduções e a fala conectada, com uma defasagem de meio segundo. Treina percepção e produção juntas, e melhora visivelmente a pronúncia e a compreensão. Como fazer:
- Escolha um áudio curto (um a dois minutos), com transcrição, num nível fácil.
- Ouça algumas vezes e leia a transcrição para entender tudo.
- Repita junto com a transcrição (o chamado shadowing com texto).
- Repita sem a transcrição, só ouvindo.
- Grave a sua versão e compare com o original.
Dez a quinze minutos por dia, com o mesmo áudio por vários dias, até sair natural.
4. A atividade 4/3/2 para fluência
Uma técnica clássica de desenvolvimento de fluência, estudada por Nation e Maurice: você fala sobre o mesmo assunto três vezes seguidas, primeiro em quatro minutos, depois em três, depois em dois, para ouvintes diferentes (ou gravando, se estiver sozinho). Como o conteúdo é o mesmo e o tempo diminui, você é forçado a falar mais rápido, com menos pausas, e a reciclar as mesmas estruturas. Estudos mostram ganho de velocidade e redução de hesitação, e às vezes até de acurácia, na terceira rodada. É a vertente 4 em estado puro: material já conhecido, pressão de tempo.
Variações: contar a mesma história do seu fim de semana para três pessoas diferentes; apresentar o mesmo projeto em versões cada vez mais curtas; responder à mesma pergunta de entrevista três vezes.
5. Self talk e narração
Narre em voz baixa (ou na cabeça) o que você está fazendo: I’m making coffee. I need to buy more milk. I think I’ll go to the market after lunch. (Estou fazendo café. Preciso comprar mais leite. Acho que vou ao mercado depois do almoço.) Cada vez que travar numa palavra, anote, procure depois e coloque no aplicativo de repetição espaçada. É uma forma barata de descobrir os seus “buracos”, na linha da hipótese do output.
6. Ditado e transcrição
Pegue trinta segundos de áudio e escreva tudo o que ouvir, palavra por palavra. Depois compare com a transcrição. Cada diferença revela um ponto de fala conectada, uma forma fraca ou uma palavra que você “conhece” e não reconhece no som. É o melhor treino bottom up que existe, e é desconfortável, que é exatamente o sinal de que funciona.
7. Conversa com tarefa e feedback
Conversar é necessário, mas conversa sem estrutura com alguém que nunca te corrige tende a reforçar os erros que você já tem. Funciona melhor:
- Com tarefa definida: resolver um problema, planejar uma viagem, explicar um conceito, fazer uma simulação de entrevista. É o princípio do ensino baseado em tarefas.
- Com feedback combinado: peça ao professor ou parceiro para anotar os erros e mostrar no fim, ou para te interromper com um sinal quando errar algo que você está treinando no momento.
- Com preparação e repetição: prepare o vocabulário antes, converse, revise os erros, e repita a mesma tarefa outro dia.
Fontes possíveis: professor particular (presencial ou online), aulas em grupo pequeno, trocas de idioma com estrangeiros que aprendem português, grupos de conversa, eventos em inglês da sua área.
8. Grave a si mesmo
Grave um minuto falando sobre um tema, toda semana, e guarde. Ouça a gravação procurando três coisas: pausas longas, erros que se repetem e sons problemáticos. Daqui a seis meses, ouça as gravações antigas: é a medida mais honesta e motivadora do seu progresso em fluência.
9. Aprender com exemplos, não só com regras
Para gramática, a combinação que funciona é: entender a regra (explícito), ver muitos exemplos reais (input), perceber a estrutura sendo usada (noticing), praticar em exercícios controlados e depois em uso livre (output), e revisar espaçado. Uma técnica útil é o caderno de frases modelo: para cada estrutura, guardar duas ou três frases reais que você achou, que se tornam o seu “molde” na hora de falar.
10. Inteligência artificial, do jeito certo
Em 2026, os modelos de linguagem viraram uma ferramenta poderosa para quem aprende, desde que usados de forma ativa:
- Parceiro de conversa por voz, disponível a qualquer hora, sem julgamento. Ótimo para treino de fluência, para simular entrevistas e reuniões, e para perder a vergonha.
- Corretor de textos com explicação. Escreva primeiro, sozinho; depois peça a correção com a explicação de cada erro e uma lista dos padrões que se repetem. Pedir para a IA escrever por você não ensina nada.
- Gerador de material no seu nível: textos graduados sobre os assuntos que te interessam, com o vocabulário que você está estudando, listas de colocações, exemplos de uma estrutura, perguntas de compreensão.
- Dicionário de uso: “qual a diferença entre borrow e lend?”, “isso soa natural?”, “como um nativo diria isso de forma mais informal?”.
Os cuidados: modelos às vezes erram, especialmente em nuances de pronúncia e regionalismos; a correção automática não substitui a interação humana na parte de pragmática e de pronúncia; e o risco maior é usar a IA como muleta, delegando justamente o esforço de recuperação e produção que gera o aprendizado. Regra simples: a IA deve te fazer trabalhar mais, não menos.
11. O que não funciona (ou funciona pouco)
- Reler anotações e listas de palavras. Dá sensação de estudo; a recuperação ativa rende muito mais.
- Aplicativos gamificados como única fonte. Servem para criar hábito e para o começo absoluto, mas não dão volume de input nem treino de fala real. A sequência de dias no app não é o mesmo que progresso.
- Assistir a séries muito acima do nível, sem legenda em inglês, esperando que a compreensão “venha sozinha”.
- Estudar gramática sem nunca usar. Conhecimento declarativo que nunca é praticado não vira fluência.
- Conversar por anos sem nenhum feedback. Fossiliza erros.
- Mudar de método toda semana. A maior parte do ganho vem de horas acumuladas de forma consistente, não do método perfeito.
O roteiro, fase por fase
Cada fase traz o objetivo, o que estudar, como praticar e como saber que acabou. As durações supõem algo entre uma e duas horas por dia, contando tudo (inclusive ouvir podcast no trânsito).
Fase 0: preparação (uma semana)
- Defina o porquê e o para quê. Trabalho remoto, viagem, mestrado fora, ler documentação técnica. O objetivo decide o vocabulário prioritário e o tipo de inglês (uma reunião de engenharia é muito diferente de um exame acadêmico).
- Meça o ponto de partida. Um teste gratuito e padronizado como o EF SET dá uma estimativa de nível no QECR. Grave dois minutos falando sobre você.
- Monte o ambiente: aplicativo de repetição espaçada instalado, um dicionário monolíngue bom (Cambridge, Oxford Learner’s, Longman, todos com áudio e IPA), uma fonte de graded readers, uma lista de podcasts para aprendizes, e um horário fixo no dia.
- Escolha uma variante de referência para pronúncia (americana ou britânica, normalmente), só para ter consistência. Entender as duas é obrigatório; produzir uma é suficiente.
Fase 1: fundação, de zero ao A2 (três a seis meses)
Objetivo: se apresentar, falar da rotina, do passado recente e de planos; entender falas lentas e claras sobre assuntos do dia a dia; ler textos simples.
Estudar:
- Os sons do inglês e o IPA, com pares mínimos, terminações -ed e -s e acento de palavra.
- As 1.000 a 1.500 famílias de palavras mais frequentes, sempre com frases.
- Gramática: estrutura da frase, to be, presente simples e contínuo, passado simples com os irregulares frequentes, there is e there are, can, futuro com going to e will, perguntas com do, artigos básicos, preposições de tempo e lugar, contáveis e incontáveis, comparativos.
- Uns cinquenta chunks de sobrevivência: cumprimentos, pedidos, pedir para repetir, pedir para falar mais devagar, agradecer, desculpar.
Praticar: graded readers do primeiro e segundo nível, áudios para iniciantes com transcrição, shadowing curto todo dia, self talk com frases simples, a primeira conversa guiada com um professor ou parceiro já no primeiro mês (não espere “estar pronto”).
Sinal de que acabou: você consegue falar por dois minutos sobre o seu dia e a sua semana passada sem voltar para o português, mesmo devagar e com erros.
Fase 2: independência, do A2 ao B1 (seis a nove meses)
Objetivo: se virar em viagens e em conversas sobre assuntos familiares, contar experiências, dar e justificar opiniões, entender os pontos principais de vídeos e podcasts sobre temas conhecidos.
Estudar:
- Até 2.500 a 3.000 famílias de palavras, com colocações e os phrasal verbs mais comuns (umas cem).
- Gramática: present perfect (com tempo e paciência), passado contínuo, condicionais zero, primeira e segunda, voz passiva, modais de conselho, obrigação e possibilidade, used to, gerúndio e infinitivo básicos, orações relativas, discurso indireto simples.
- Fala conectada: formas fracas, ligação, gonna e wanna, o flap americano.
- Os falsos cognatos e os erros típicos de brasileiros da lista acima.
Praticar: leitura extensiva diária (graded readers de nível intermediário, depois livros juvenis), podcasts para aprendizes de nível intermediário, séries com legenda em inglês, input estreito sobre um assunto de que você gosta, conversa semanal com tarefa e feedback, a atividade 4/3/2 com temas do cotidiano, escrita de pequenos textos e mensagens com correção.
Sinal de que acabou: você acompanha uma conversa sobre um assunto conhecido, conta uma história com começo, meio e fim, e se vira numa situação imprevista de viagem.
Fase 3: o platô intermediário, do B1 ao B2 (nove a quinze meses)
É a fase mais longa e a mais perigosa: o progresso fica menos visível, a pessoa já “se vira” e perde o senso de urgência, e muita gente estaciona para sempre no B1. Atravessar o platô exige mudar o tipo de estudo: sair do material para aprendizes e entrar no material autêntico, e começar a trabalhar seriamente a fluência e a acurácia.
Objetivo: entender discussões técnicas da sua área, conversar com nativos com espontaneidade, participar de reuniões, escrever textos claros e detalhados.
Estudar:
- Vocabulário até 4.000 a 5.000 famílias, com foco no vocabulário da sua área e nas colocações. Phrasal verbs em massa.
- Gramática: present perfect contínuo, past perfect, terceira condicional, modais no passado, causativo, wish, o uso refinado dos artigos, conectivos e estruturas de texto.
- Pragmática: pedidos indiretos, discordância educada, small talk, linguagem de reuniões e de e-mail.
- Pronúncia refinada: entonação, acento de foco, os sons que ainda atrapalham a inteligibilidade.
Praticar: séries, podcasts e vídeos autênticos, primeiro com legenda em inglês, depois sem; livros comuns de leitura fácil; documentação, artigos e palestras da sua área; ditado semanal com trechos de podcasts autênticos; shadowing com falas autênticas; conversa com tarefas mais complexas (debater, negociar, apresentar); a 4/3/2 com temas profissionais; gravação semanal; escrita regular com feedback.
Sinal de que acabou: você participa de uma reunião de trabalho inteira em inglês, entende quase tudo, contribui sem preparar o que vai dizer, e consegue ver um episódio de série sobre um tema cotidiano sem legenda entendendo o enredo e a maior parte dos diálogos.
Fase 4: domínio, do B2 ao C1 (um a dois anos)
Objetivo: usar a língua com flexibilidade e precisão no trabalho e na vida acadêmica, entender sentidos implícitos, humor e ironia, escrever textos longos e bem estruturados.
Estudar:
- Vocabulário até 7.000 a 9.000 famílias, com nuance (look, glance, stare, gaze, peek: olhar, de jeitos diferentes), registros, expressões idiomáticas, vocabulário acadêmico.
- Gramática avançada: inversões, clivadas, condicionais mistas e sem if, nominalização, hedging.
- Variedades do inglês: sotaques britânicos, americanos, australianos, indianos, e o inglês de falantes não nativos do mundo todo.
- Os erros fossilizados: grave, transcreva e cace os padrões que você ainda repete.
Praticar: quase tudo em inglês: livros, notícias, séries, podcasts sem adaptação; escrever com regularidade (um blog, documentação, posts técnicos) com revisão; apresentações e discussões; mediação (resumir em inglês algo lido em português e vice versa); preparação para um exame de certificação, se fizer sentido.
Sinal de que acabou: você trabalha em inglês sem cansaço especial, lê um romance sem dicionário, e as pessoas comentam o que você disse, não como você disse.
Fase 5: refinamento, C1 em diante (o resto da vida)
Do C1 ao C2 o caminho é longo, e para a maioria dos objetivos profissionais não é necessário. O que se faz aqui é manter a língua viva (ela se perde sem uso), ampliar repertórios específicos (literatura, humor, escrita persuasiva, falar em público), e polir os detalhes que restam. É o mesmo que acontece na língua materna: ninguém para de aprender português.
Uma semana típica
Com uma hora e meia por dia, distribuída pelas quatro vertentes:
- Todo dia, 20 minutos: repetição espaçada (revisões antes de cartões novos).
- Todo dia, 30 minutos: input extensivo (leitura de graded reader ou livro, podcast ou série no nível certo), inclusive em tempos mortos, como trânsito e academia.
- Todo dia, 10 a 15 minutos: shadowing ou ditado.
- Todo dia, 10 minutos: self talk ou a 4/3/2 sozinho, gravando.
- Três vezes por semana, 30 minutos: estudo focado na língua (um tópico de gramática, pronúncia ou um grupo de colocações), com exercícios e frases modelo.
- Uma ou duas vezes por semana, 30 a 60 minutos: conversa com tarefa e feedback, com professor, parceiro ou IA.
- Uma vez por semana: um texto escrito com correção, e a gravação semanal de um minuto para o arquivo de progresso.
Consistência vence intensidade. Uma hora todo dia por dois anos produz muito mais que oito horas por dia por duas semanas seguidas de seis meses parado.
Como medir o progresso
- Autoavaliação com os descritores do QECR. A lista “consigo fazer” de cada nível é pública e é o melhor checklist que existe.
- Testes gratuitos de nivelamento, como o EF SET, a cada seis meses, para ter um número.
- O arquivo de gravações, para fluência e pronúncia.
- Marcos concretos: a primeira série inteira sem legenda, o primeiro livro comum lido até o fim, a primeira reunião sem preparar o que dizer, a primeira entrevista de emprego em inglês.
- Exames internacionais, quando houver necessidade formal:
- IELTS: o mais aceito para imigração e universidades no Reino Unido, Canadá e Austrália. Notas de 1 a 9 por habilidade, em meias bandas.
- TOEFL iBT: muito aceito nos Estados Unidos. Desde janeiro de 2026, usa uma escala de 1 a 6, em meios pontos, alinhada diretamente ao QECR (5 a 5,5 equivale a C1, 4 a 4,5 a B2), com a antiga nota de 0 a 120 mostrada junto durante um período de transição.
- Cambridge English (B2 First, C1 Advanced, C2 Proficiency): certificados sem validade, muito reconhecidos na Europa e por empresas.
- Duolingo English Test: online, barato e rápido, aceito por um número crescente de universidades.
- Linguaskill e testes corporativos: comuns em processos seletivos.
Um alerta: preparação para exame é uma habilidade separada (formato, tempo, estratégias). Faça um simulado antes de marcar a prova, mas não confunda treinar para a prova com aprender a língua.
Sobre motivação, vergonha e consistência
Dois obstáculos derrubam mais gente que qualquer tópico de gramática:
- A vergonha de errar. Ninguém aprende a falar sem falar mal primeiro. A pesquisa sobre ansiedade em língua estrangeira mostra que ela reduz o desempenho e, principalmente, a disposição de falar, o que reduz a prática, o que mantém o medo. A saída é gradual: começar com IA ou com um professor, depois um parceiro, depois um grupo. E lembrar que, do outro lado, a maioria das pessoas está muito mais preocupada em entender você do que em avaliar o seu sotaque.
- A falta de constância. Motivação oscila; hábito, não. Amarre o estudo a algo que você já faz todo dia (o café, o trânsito, a academia), mantenha uma meta mínima ridícula para os dias ruins (cinco minutos de revisão), e troque a pergunta “quanto eu estudei hoje” por “quantas horas de inglês acumulei este mês”.
E escolha conteúdo de que você gosta. Quem gosta de tecnologia aprende mais vendo palestras técnicas do que lendo textos genéricos de livro didático. O input que você consome por vontade própria é o único que vai ter volume suficiente.
Checklist final
- Sei qual é o meu nível atual no QECR e qual é o nível alvo, e por quê.
- Entendo a diferença entre proficiência (o que sei) e fluência (a velocidade com que uso o que sei), e treino as duas.
- Meu estudo cobre as quatro vertentes: input, output, estudo da língua e fluência.
- Uso repetição espaçada todo dia, com frases e áudio, e com recuperação ativa.
- Consumo input compreensível em volume, no nível certo, por prazer.
- Conheço o IPA, os sons que confundo e as regras de fala conectada.
- Estudo vocabulário por frequência, com colocações e chunks, não palavras soltas.
- Domino os pontos de gramática que o português não tem: present perfect, artigos, there is, sujeito obrigatório, do nas perguntas.
- Conheço e caço os erros típicos de brasileiros.
- Converso regularmente, com tarefa e com feedback.
- Faço treino de fluência: shadowing, 4/3/2, gravações.
- Escrevo e recebo correção.
- Uso a IA para trabalhar mais, não menos.
- Meço o progresso a cada seis meses e mantenho o hábito nos dias ruins.
Nota
Este roteiro junta o que a pesquisa em aquisição de segunda língua e a psicologia cognitiva mostram com mais consistência: input compreensível em volume, output com feedback, atenção à forma, prática que automatiza, repetição espaçada e recuperação ativa. Nenhum método mágico substitui as horas. O que um bom método faz é garantir que cada hora conte. Se você tiver correções, sugestões de material ou um relato de como foi o seu caminho, elas são muito bem-vindas.