Diálogo sobre o Mentor e a Confiança
Cenário: fim de tarde na ágora. Glauco está sentado num degrau, com dois rolos de papiro no colo, sem desenrolar nenhum. Sócrates se aproxima e senta ao lado.
SÓCRATES: Dois papiros e nenhum aberto. Ou os dois são ruins, ou tu não sabes qual ler primeiro.
GLAUCO: Nenhum dos dois, Sócrates. São bons demais, e esse é o problema. Este é de Dámon, com quem estudo há três anos. Aquele é de Teófilo, que conheci no inverno. Nunca ouvi ninguém explicar as coisas como esses dois.
SÓCRATES: E qual é a aflição de ter dois bons mestres ?
GLAUCO: Ontem citei Teófilo diante de Dámon. Ele fez silêncio, depois disse que Teófilo é um charlatão e que eu perderia meu tempo. Hoje contei a Teófilo, e ele riu e disse que Dámon é um velho que repete o que leu aos vinte anos. Cada um deles é tudo o que admiro. E cada um despreza o outro.
SÓCRATES: E o que tu concluis disso ?
GLAUCO: Que um dos dois está errado, e que preciso descobrir qual, para seguir o certo.
SÓCRATES: Diz-me primeiro uma coisa. Por que procuraste um mestre ?
GLAUCO: Porque não se aprende sozinho. Quem já percorreu o caminho poupa os outros de tropeçar nas mesmas pedras.
SÓCRATES: Isso é verdade, e é bom que tenhas procurado. Mas responde com honestidade: quando encontraste Dámon, foi só o caminho que te interessou, ou também o descanso ?
GLAUCO: Que descanso ?
SÓCRATES: O descanso de não precisar mais decidir. Ter alguém a quem perguntar “está certo ?” e aceitar a resposta. Dormir sabendo que, se errares, o erro foi de quem te ensinou.
GLAUCO: Não gosto de como soa, mas sim. Havia descanso nisso.
SÓCRATES: Não te envergonhes. Todo homem quer esse descanso, e é por isso que todo homem procura um mentor com tanta pressa. Não é só o saber que buscamos; é alguém em quem pousar o peso de julgar. E repara: enquanto tinhas um só mestre, o descanso funcionava. O que o quebrou foi o segundo.
GLAUCO: Porque agora um diz uma coisa e o outro diz outra.
SÓCRATES: Não. Sobre a maior parte das coisas, os dois dizem o mesmo, ou tu não admirarias ambos. O que quebrou o teu descanso foi outra coisa: descobriste que a admiração que sentes por um não obriga o outro a sentir o mesmo. Tu querias que teus mestres se amassem como tu os amas. Eles não têm esse dever.
GLAUCO: Mas se Dámon é sábio, e diz que Teófilo é charlatão, não devo ao menos considerar ?
SÓCRATES: Deves, e também deves considerar o contrário. Mas vamos devagar. Quando Dámon te ensina geometria, de onde vem a autoridade dele ?
GLAUCO: De saber geometria.
SÓCRATES: E quando ele te diz que Teófilo é charlatão, de onde vem a autoridade ?
GLAUCO: De… conhecer Teófilo, suponho.
SÓCRATES: E conhece ? Já o ouviu ensinar ? Já leu o que ele escreve ? Ou conhece a fama, uma frase dita numa discussão, a lembrança de uma rixa antiga que ninguém mais sabe como começou ?
GLAUCO: Não sei. Nunca perguntei.
SÓCRATES: Então aqui está a primeira coisa a guardar. Um homem pode ser mestre em uma arte e ser tão ignorante quanto qualquer um numa segunda. Saber geometria não torna ninguém juiz de caráter. Quando tu aceitas o juízo de Dámon sobre Teófilo com a mesma confiança com que aceitas o teorema, estás estendendo a autoridade dele para um terreno onde ele não a conquistou. E ele, se for honesto, não a reivindicaria.
GLAUCO: Então nem um nem outro está errado sobre geometria. Estão errados um sobre o outro.
SÓCRATES: Talvez. Ou talvez um deles tenha razão, e tu ainda não saibas. Mas repara no que acabaste de fazer: há um minuto, o problema era “qual dos dois seguir”. Agora é “o que cada um sabe de fato, e sobre o quê”. É uma pergunta melhor.
GLAUCO: É uma pergunta que me devolve o trabalho.
SÓCRATES: Esse trabalho sempre foi teu, Glauco. Tu só o tinhas emprestado. Já conversamos, noutra tarde, sobre a tábua da praça: o rótulo que alguém te cola não te dispensa de examinar. O mesmo vale para o rótulo que um mestre cola no outro. “Charlatão” e “velho que repete” são pedras atiradas, não razões. Pede as razões. Se vierem, pesa-as. Se não vierem, deixa as pedras no chão.
GLAUCO: E se eu pesar e concluir que Dámon, que tanto me ensinou, errou sobre Teófilo ? O que faço com isso ?
SÓCRATES: O que fazes quando o teu cavalo tropeça ?
GLAUCO: Levanto-o e sigo. Não vendo o cavalo.
SÓCRATES: E por que venderias o mestre ? Glauco, ouve bem isto, porque é a parte que mais custa aos jovens: o teu mestre vai errar. Não “pode errar”, vai. Vai errar sobre pessoas, vai errar sobre fatos, vai ter dias de ciúme, de cansaço e de teimosia. E quando isso acontecer, tu terás duas saídas erradas e uma certa. A primeira errada é fingir que não viste, para proteger o descanso. A segunda errada é derrubar o homem inteiro, porque uma coluna rachou. A certa é mais difícil: continuar a aprender geometria com quem sabe geometria, e guardar para ti o juízo sobre as pessoas.
GLAUCO: Soa como ter menos confiança nele.
SÓCRATES: Soa como ter a confiança certa, em vez da confiança inteira. A confiança inteira é a que se dá aos deuses, e nem a esses tanto. Dar a um homem a confiança que cabe a um deus não é honrá-lo. É condená-lo a te decepcionar, porque ele não tem como pagar a dívida que tu mesmo inventaste.
GLAUCO: Então o mentor é um homem como eu.
SÓCRATES: Que foi um pouco mais longe num caminho. Só isso, e isso já é muito. Repara que é justamente o erro que te permite reconhecer nele um igual. Um mestre que nunca errasse não seria mestre, seria um oráculo, e diante de oráculos não se aprende, obedece-se. Um homem que erra e corrige, que mostra onde tropeçou, te ensina duas vezes: ensina a arte e ensina que a arte cabe numa vida humana. O erro é a prova de que o caminho que ele percorreu é um caminho que tu também podes percorrer.
GLAUCO: Nunca tinha pensado que o erro do mestre fosse um presente.
SÓCRATES: Não é um presente, é um fato. Mas é um fato que te liberta, se o aceitares. Enquanto o teu mestre for perfeito, tu serás eternamente aluno. No dia em que o vires errar, e continuares a respeitá-lo mesmo assim, terás começado a ter opinião própria. E ter opinião própria sobre as pessoas, inclusive sobre quem mais admiras, é o começo de ser alguém, e não a sombra de alguém.
GLAUCO: E Teófilo ? Continuo a ouvi-lo ?
SÓCRATES: Continua a ouvir os dois. Aprende de cada um o que cada um sabe. E quando um falar mal do outro, faz o que farias com qualquer outra afirmação: pergunta “por quê ?”, escuta, e decide tu. É possível que um dia descubras que um deles tinha razão. É possível que descubras que os dois estavam sendo pequenos, como homens às vezes são. Nos dois casos terás aprendido algo que nenhum deles poderia te ensinar: que os teus olhos também valem.
GLAUCO: E se os meus olhos errarem ?
SÓCRATES: Vão errar, e então serás como eles. É isso que nos faz humanos, Glauco: não a ausência do erro, mas o dever de julgar mesmo sabendo que podemos errar, e a decência de continuar a honrar quem errou antes de nós.
..então Glauco guardou os dois papiros na mesma sacola, Sócrates comentou que a sacola parecia mais leve, e os dois foram tomar uma cerveja.
Glossário
- ágora: praça central das cidades gregas, onde se reunia o povo
- papiro: material em que se escrevia antes do papel, enrolado em rolos
- oráculo: lugar ou pessoa que, na Grécia antiga, dava respostas tidas como vindas dos deuses
Nota
Este diálogo é uma continuação do Diálogo sobre os Rótulos e a Verdade. Lá, a questão era o rótulo que os outros colam em nós. Aqui, é o rótulo que as pessoas que admiramos colam umas nas outras.
Todo mundo procura um mentor, e a necessidade é legítima: ninguém aprende tudo sozinho. O problema não está em confiar, está na quantidade. É muito fácil entregar a alguém que admiramos não só o que ele sabe, mas também o que ele acha, inclusive sobre outras pessoas. E quando duas pessoas que respeitamos não se respeitam, o conforto de ter um guia desaba, porque descobrimos que o juízo delas sobre o mundo não era um só.
A saída não é escolher um lado nem abandonar os dois. É aceitar que todos erram, o mentor incluído, e que ter opinião própria sobre as pessoas, formada com as nossas razões e os nossos olhos, não é desrespeito. É a única forma de respeito que não exige que o outro seja mais do que humano.