Diálogo sobre os Rótulos e a Verdade

Cenário: Sócrates encontra Glauco no pórtico de uma praça, onde este examina, irritado, uma tábua cheia de inscrições.

SÓCRATES: Glauco, vejo-te de cenho franzido. Que te aflige?

GLAUCO: Descobri, Sócrates, que um poeta cuja obra muito amo sustenta opiniões políticas que me repugnam. E outro, cujas ideias partilho como irmão, escreve versos sofríveis. Sinto que devo escolher um e renegar o outro.

SÓCRATES: Diz-me: quando comes uma figueira, julgas o fruto pelo sabor, ou pelas opiniões do agricultor?

GLAUCO: Pelo sabor.

SÓCRATES: E se o agricultor for homem perverso, mas seus figos doces, deixarás de comê-los?

GLAUCO: Não, pois o figo nada tem com a perversidade do homem.

SÓCRATES: Então a obra, uma vez feita, vive por si, ou depende a cada instante de quem a fez?

GLAUCO: Vive por si.

SÓCRATES: Logo, podemos julgar o figo pelo que ele é, sem nos obrigarmos a louvar o agricultor em tudo. E inversamente: o fato de o homem ser virtuoso não tornará doce um figo amargo. Mistura essas coisas, Glauco, e perderás duas vezes: perderás o gosto dos bons figos, e perderás a clareza para julgar o homem.

GLAUCO: Compreendo. Mas há ainda outra coisa nesta tábua que me incomoda. Está escrito sobre mim: “Glauco é tolo.”

SÓCRATES: Só isso?

GLAUCO: Só isso.

SÓCRATES: E se eu te dissesse: “Glauco, és tolo porque, calculando o preço de três ânforas de azeite, multiplicaste por dois e perdeste uma dracma”, que farias?

GLAUCO: Veria se é verdade, e, sendo verdade, corrigiria o erro.

SÓCRATES: E se eu apenas dissesse “és tolo”, sem mais?

GLAUCO: Não saberia o que corrigir, nem se há algo a corrigir.

SÓCRATES: Então uma afirmação te entrega uma razão, um caminho. A outra te entrega apenas uma pedra atirada. Diz-me: confiarias teu cavalo a um homem que estende a mão pedindo as rédeas sem dizer quem é?

GLAUCO: Jamais.

SÓCRATES: E o teu juízo sobre ti mesmo, coisa muito mais valiosa que um cavalo, entregarás a quem te rotula sem dizer por quê?

GLAUCO: Seria mais tolo do que ele me acusa de ser.

SÓCRATES: Guarda então esta regra: a acusação sem razão é palha ao vento, ignora-a. A acusação com razão é semente que pode germinar em ti, examina-a. Mas nota bem, Glauco: ninguém pode examinar por ti. Nem eu, nem o autor da tábua, nem a multidão da praça.

GLAUCO: Como assim, Sócrates?

SÓCRATES: Quero dizer que o trabalho de pesar as razões, aceitar o que se sustenta e descartar o que não se sustenta, é teu e somente teu. Não é apenas sobre homens que isto vale, Glauco. É sobre tudo o que encontras: uma lei que te impõem, um conselho que recebes, uma decisão que precisas tomar na tua casa ou na tua cidade. Em todas, alguém quererá pensar por ti.

GLAUCO: E se eu errar ao decidir sozinho?

SÓCRATES: Errarás. E é isto que distingue o homem livre do escravo: o homem livre carrega as consequências do que conclui. Se decidires bem, colherás. Se decidires mal, perderás. Mas em ambos os casos terás aprendido algo que ninguém pode aprender por ti.

GLAUCO: E aquele que prefere que outro decida em seu lugar?

SÓCRATES: Esse vive uma vida emprestada. Quando algo der certo, não terá o mérito. Quando algo der errado, culpará o outro, e nada aprenderá, pois o erro não foi propriamente seu. É a pior das condições, Glauco: a do homem que nunca falha por nunca ter ousado julgar.

GLAUCO: Então a liberdade tem o preço da responsabilidade.

SÓCRATES: Esse é seu preço, e também sua dignidade. Examina cada obra, cada acusação, cada situação. Pede sempre as razões. Decide. E quando a consequência vier, doce ou amarga, recebe-a como tua. É o único caminho para se tornar de fato alguém.

"só o conhecimento liberta o homem" — Eneas Carneiro